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Guia do Paciente

A primeira ligação, o primeiro almoço com quem votou diferente. Sobre o que a eleição quebrou, o que continua de pé e por que retomar o vínculo não exige reabrir o debate.

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Ilustração para o artigo: Voltar a conversar: o reencontro com quem votou diferente

Segunda-feira, fim de tarde. O celular acende em cima da mesa com o nome do cunhado, e ele deixa tocar duas vezes antes de atender. Nesses dois toques passa muita coisa pela cabeça. Desde o começo de outubro, os dois não trocam nada além do indispensável, e a última conversa de verdade terminou com uma ironia de cada lado. No domingo à noite, um deles comemorou. O outro, não. Para o que interessa aqui, tanto faz qual.

Ele atende meio armado, com uma frase pronta para o caso de o assunto aparecer. O assunto não aparece. O cunhado quer saber se a furadeira dele ainda está por ali, porque no sábado precisa pendurar uma prateleira no quarto do filho. Falam da furadeira, da broca certa para parede de concreto, de um horário que sirva aos dois. Em menos de três minutos, desligam.

Ele fica um tempo com o telefone na mão. Não sabe se aquilo foi uma trégua, uma esquiva ou o começo de alguma coisa. Sabe apenas que, para ele, a eleição terminou um pouco mais naquele momento do que no domingo.

Dois dias depois do resultado do segundo turno entre Flávio Bolsonaro e Lula, versões dessa ligação estão acontecendo em muitas casas. A amiga de vinte anos que manda um “e aí, sumiu?”. O almoço de domingo que vai reunir as mesmas pessoas que discutiram à mesa no começo do mês. O colega da mesa ao lado que, desde o último debate, só fala de trabalho. Em todas existe a mesma pergunta, quase nunca feita em voz alta: como se volta?

O que se quebrou e o que continuou de pé

Uma campanha longa e disputada costuma quebrar coisas finas, que nem se sabia que estavam ali. A ideia de que as pessoas próximas, no fundo, pensavam parecido. A naturalidade de falar de qualquer assunto sem medir as palavras. A confiança de que certas frases nunca seriam ditas entre aquelas duas pessoas. Quando isso se parte, a impressão é de que a relação inteira ficou comprometida.

Raramente ficou. Uma relação próxima é feita de muitos fios, e a política, por mais espaço que tenha ocupado nos últimos meses, é só um deles. Os outros continuam lá e costumam reaparecer pelos caminhos mais banais: a furadeira emprestada, a carona para o aeroporto, a foto do sobrinho, o aniversário de alguém, a pergunta sobre como a avó saiu da consulta. Nada disso é pouca coisa. É por esses assuntos práticos que muitas relações fazem o primeiro teste depois de uma briga, como quem põe o pé na água antes de entrar.

Por isso vale desconfiar da leitura que vê na ligação da furadeira uma covardia, ou uma hipocrisia, como se só fosse honesto voltar depois de resolver a política. Muitas vezes o assunto prático diz exatamente o que precisa dizer: o vínculo continua aqui. A política fica para depois, ou para nunca, e isso não torna a volta falsa.

Retomar o vínculo não é reabrir o debate

Muita gente adia o reencontro porque imagina que ele precisa começar pela conversa que ficou pendente. Ou a discussão é retomada e chega a um fim, com alguém reconhecendo que o outro tinha razão, ou não há como voltar. Como esse fim não chega nunca, a distância vai se estendendo por conta própria.

São coisas diferentes. O debate é sobre ideias e pode ficar em aberto por anos, como fica entre tantas pessoas que se querem bem. O vínculo é sobre as pessoas e não depende de o debate se fechar. Dá para voltar a almoçar, a rir das mesmas histórias, a contar um com o outro, mantendo cada um exatamente o que pensa.

Isso não quer dizer fingir que nada aconteceu. Quando houve uma frase que feriu, talvez ela precise ser nomeada em algum momento, e esse é um trabalho à parte, de reparação. Mas reconhecer o que aconteceu é diferente de reabrir a disputa. Algo como “foi um mês difícil entre a gente” reconhece a distância sem trazer a discussão de volta para a mesa. O que quase nunca precisa ser dito é a análise do resultado, o “eu avisei”, a previsão do que vai acontecer com o país. Tudo isso é a campanha tentando continuar por outros meios.

Conversar sem precisar converter

Há um desejo que sobrevive às eleições e merece ser olhado com cuidado: o de converter. Ele assume formas diferentes conforme o lado do resultado em que a pessoa ficou. Em quem comemorou, pode surgir como a vontade de ouvir do outro que, afinal, não foi tão ruim assim. Em quem perdeu, como a espera silenciosa pelo primeiro tropeço, para poder dizer lá adiante que estava certo. Nos dois casos, a conversa continua sendo uma disputa, só que adiada.

No fundo, querer converter é querer que o outro fique parecido conosco, para que estar perto dele volte a ser fácil. É compreensível. Mas carrega uma condição que nenhuma relação adulta sustenta por muito tempo: só consigo estar com você se você pensar como eu.

O pediatra e psicanalista inglês Donald Winnicott publicou, em 1958, um ensaio curto chamado A capacidade para estar só. Nele descreve um paradoxo: a capacidade de ficar só, que ele ligava à maturidade emocional, nasce da experiência de estar só na presença de alguém. É o bebê, ou a criança pequena, entregue ao próprio mundo enquanto a mãe, ou quem cuida dela, está ali, confiável, presente sem exigir nada. Winnicott descreveu essa forma de relação como a de duas pessoas em que ao menos uma, talvez as duas, está a sós consigo mesma, e para quem a presença da outra continua importando. E acrescentou que é desse material que se faz a amizade.

Levada para o almoço de domingo, a ideia ajuda a ver o que está em jogo. Converter o outro seria uma espécie de fusão: só conseguir estar perto se pensarmos igual. Romper seria o movimento oposto: não suportar a presença de quem pensa diferente. Entre os dois há um lugar mais difícil e mais maduro, que é dividir a mesa com alguém cujo mundo interno não é o nosso, sem invadi-lo e sem se deixar invadir. Cada um sai do almoço pensando o que pensava quando chegou. E, ainda assim, esteve com o outro.

O primeiro almoço pode ser só suficiente

O primeiro almoço depois de uma briga costuma chegar carregado de expectativa. Ou vai ser o reencontro emocionado em que tudo se resolve, ou vai ser o desastre que confirma que não havia volta. Quase nunca é uma coisa nem outra. É um almoço meio desajeitado, com silêncios um pouco mais longos que o normal, uma piada que cai mal, um assunto evitado de um jeito que todos percebem.

Winnicott tem outra ideia que ajuda aqui. Num artigo de 1953 sobre os objetos transicionais, ele descreveu a mãe “suficientemente boa”: não a mãe perfeita, que adivinha cada necessidade, mas a que se adapta quase inteiramente ao bebê no começo e, aos poucos, vai falhando em medidas que ele consegue suportar. Em outros textos, falou também de um ambiente suficientemente bom. Para Winnicott, são essas falhas toleráveis, dentro de um cuidado que continua, que permitem à criança ir encontrando a realidade sem se desorganizar.

A ideia foi pensada para os primeiros tempos da vida, e seria forçado transportá-la inteira para um almoço entre adultos. Mas ela deixa uma pista. O que reconstrói a confiança entre duas pessoas não é um encontro sem falhas. É um encontro com falhas que a relação aguenta: o silêncio constrangido, a frase meio torta, o assunto contornado e, no fim, um “a gente se vê no sábado”. Um reencontro suficientemente bom é aquele depois do qual ainda se quer outro.

Quando não dá, e tudo bem

Nem toda relação está pronta para voltar dois dias depois de uma eleição, e nem toda precisa. Os relógios costumam andar em ritmos diferentes. Quem saiu satisfeito do resultado tende a querer virar a página depressa, e às vezes estranha que o outro não atenda o telefone com a mesma leveza. Quem perdeu pode estar no meio de um luto que ainda não terminou, e a pressa alheia soa como pouco caso. O contrário também acontece: há quem tenha ganhado e continue magoado com o que ouviu durante a campanha, e quem tenha perdido e queira justamente voltar logo ao normal. Esperar o tempo do outro, e reconhecer o próprio, também faz parte da volta.

E há relações em que, por enquanto, a volta não é possível. Quando cada encontro vira uma nova rodada de desprezo. Quando toda tentativa termina na mesma discussão, com as mesmas frases. Quando a eleição apenas deu nome a uma distância que existia muito antes dela. Nesses casos, não voltar agora não é fracasso nem rancor. Pode ser a forma possível de preservar o que resta da relação até que alguma coisa mude. Uma porta encostada não é uma porta trancada.

Quando o reencontro pesa mais do que deveria

Para a maior parte das pessoas, a volta vai acontecendo devagar, no ritmo dos aniversários, dos almoços e das ferramentas emprestadas. Em alguns casos, porém, o reencontro passa a ocupar um espaço desproporcional. Quando a ideia de um almoço provoca dias de angústia antecipada. Quando o sono some por várias noites antes de um encontro de família. Quando a pessoa percebe que não consegue ficar no mesmo ambiente que alguém que pensa diferente sem precisar vencer ou ir embora. Quando o afastamento se espalha de uma pessoa para a família inteira e o sofrimento passa a tomar conta do dia.

Nesses momentos, a psicoterapia de orientação analítica oferece algo próprio. Não um roteiro para a próxima conversa, nem um veredito sobre quem tinha razão, mas um lugar para entender o que a diferença daquela pessoa toca. Por que estar perto de quem pensa diferente parece tão ameaçador. O que se perde, por dentro, quando o outro não concorda. Que história mais antiga se repete na dificuldade de voltar. Muitas vezes, quando isso fica mais claro, a volta deixa de depender de que o outro mude.

No sábado, ele devolve a furadeira e acaba ficando para ajudar com a prateleira. Da eleição, ninguém fala. Não fez falta.

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Dr. Leonardo Sodré é médico psiquiatra e psicoterapeuta em Brasília (CRM-DF 14.206 · RQE 14.761). Doutor em Psiquiatria pela UFRGS e professor na Faculdade de Medicina da UnB. Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento individual.