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Saúde Mental dos Médicos
6 min de leitura
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Médico diante de um formulário, hesitando em registrar que buscou ajuda

Há uma pergunta que médicos fazem baixo, geralmente perto do fim da conversa, quando já decidiram que vão perguntar: “isso fica registrado em algum lugar?”

A pergunta costuma vir acompanhada de um pedido de desculpas, como se fosse mesquinho se preocupar com isso diante do que se está sentindo. Não é. É uma das perguntas mais sensatas que alguém pode fazer.

Numa pesquisa recente com milhares de médicos, uma ginecologista escreveu algo que ficou comigo: disse que odiava a própria vida, mas que sair não era opção, e tratamento em regime de internação também não — porque aquilo a tornaria inempregável.

É fácil ler essa frase como estigma internalizado, como se ela estivesse exagerando um medo que só existe na cabeça dela. Acho que vale considerar outra leitura, mais incômoda: ela pode simplesmente estar certa sobre as consequências.

Talvez você já tenha feito essa conta. Ou talvez conheça alguém que adia procurar ajuda por razões que nunca disse em voz alta.

De um jeito ou de outro, queria falar sobre isso sem fingir que o medo é infundado.

O silêncio tem razões, e elas são reais

A conversa habitual sobre médicos que não procuram ajuda costuma girar em torno de cultura de invulnerabilidade, de orgulho profissional, de dificuldade de sair do papel de quem cuida. Tudo isso existe. Mas explica só uma parte.

Quando se pergunta diretamente aos médicos por que escondem o que estão sentindo, a resposta mais frequente — em levantamentos sucessivos — não é vergonha. É o receio de ter a competência profissional posta em dúvida.

E esse receio tem endereço. Muitos formulários de credenciamento hospitalar e de renovação de registro ainda perguntam se o profissional já foi tratado por transtorno psiquiátrico. Não perguntam se ele está apto agora, que seria a única coisa legítima de se perguntar. Perguntam sobre o passado inteiro.

Ou seja: o estigma não está apenas na cultura, que muda devagar com conversa. Está impresso em documento. E documento só muda quando alguém reescreve.

Quando um médico decide não procurar ninguém, ele não está escolhendo entre cuidar-se e não cuidar-se. Está escolhendo entre um risco de carreira que é concreto, documentável e imediato, e um risco de saúde que é difuso, futuro e que parece administrável. Feita assim, a conta pende para o silêncio. E pende por razões que qualquer pessoa sensata reconheceria.

Por isso os programas institucionais ajudam pouco

Quando os médicos foram perguntados sobre o que o empregador poderia fazer de mais útil, apenas sete por cento apontaram serviços de apoio ou acompanhamento oferecidos pela instituição.

Sete por cento, numa população em que quase metade relata esgotamento. Não é desinteresse por cuidado. É que um serviço oferecido pela mesma instituição que faz o credenciamento não resolve o problema central — ele o concentra. Buscar ajuda ali significa gerar registro exatamente onde o registro custa mais caro.

É por isso que campanhas de conscientização movem tão pouco esse número. Elas pedem coragem para enfrentar um risco que continua existindo depois da campanha.

O que o silêncio cobra depois

Reconhecer que a conta é sensata não é o mesmo que dizer que ela sai barata. E aqui há algo que me parece importante dizer com cuidado, sem alarmismo.

Médicos mais velhos relatam com muito mais frequência um esgotamento que já dura mais de dois anos, enquanto os mais jovens estão majoritariamente no começo. O que isso desenha é algo que se sedimenta em vez de passar. O tempo, nesse assunto, não costuma ser neutro.

E existe uma assimetria cruel na forma como os dois riscos são sentidos. O risco de procurar ajuda parece imediato e controlável — basta não ir. O risco de não procurar parece distante e improvável. Só que é o segundo que produz justamente o cenário mais temido: o afastamento por crise, que é público, involuntário e infinitamente mais registrável do que uma consulta que ninguém precisaria saber que existiu.

O silêncio protege até o ponto em que deixa de proteger. E esse ponto não é escolhido por ninguém.

O que muda a conta

Duas coisas, em escalas bem diferentes.

A primeira é lenta e não depende de nenhum médico individualmente: enquanto os formulários perguntarem sobre histórico de tratamento em vez de perguntarem sobre capacidade atual de exercício, o incentivo ao silêncio continua de pé. Isso é pauta de conselho, de sociedade de especialidade, de corpo clínico — e vale ser dito em voz alta nesses lugares.

A segunda é imediata e talvez seja a que interessa agora: uma consulta particular, fora da estrutura empregadora, não é a mesma coisa que um programa institucional. Vale ser preciso sobre a diferença, porque ela costuma se perder quando alguém avalia, de forma geral, se “vale a pena procurar ajuda”.

Consulta particular está protegida pelo sigilo médico comum, não gera comunicação a empregador, a corpo clínico ou a comissão nenhuma, e não tem qualquer relação com processos de avaliação de aptidão. O que se conversa ali fica ali. Isso não conserta o problema estrutural, e seria desonesto sugerir que consertasse — mas muda substancialmente o que está de fato em risco na decisão de conversar com alguém.

Se você vem adiando

Não estou pedindo que você enfrente o medo. Estou sugerindo que talvez o medo esteja mirando o alvo errado.

A pergunta mais útil provavelmente não é “devo procurar ajuda apesar do risco”. É outra, mais específica: qual risco exatamente eu estou tentando evitar — e o lugar que estou considerando de fato o produz?

Vale dizer, por fim, que um em cada cinco médicos nesse mesmo levantamento respondeu que não esconderia isso de ninguém. Não é maioria. Mas é um número que não existia com essa clareza há alguns anos, e ele foi construído por pessoas que fizeram a conta e chegaram a outra conclusão.

Você não precisa contar a ninguém. Só talvez não precise carregar sozinho.


Se quiser conversar sobre isso, atendo médicos em consulta particular, em ambiente reservado, sob sigilo médico comum e sem qualquer vínculo com estruturas institucionais de avaliação — WhatsApp da secretária Bárbara ou informações sobre a consulta.