Decisões patrimoniais e sobre os filhos precisam ser tomadas justamente quando dormir, concentrar e pensar ficou difícil. Sobre esse ponto.

A sala de reuniões do escritório é confortável. Café servido, água com gás, uma mesa grande demais para duas pessoas. A advogada explica a estrutura da partilha com clareza: os imóveis, a participação na sociedade, o que entra, o que fica de fora, o que é preciso decidir até sexta.
Ele acompanha. Faz uma pergunta pertinente sobre um dos itens. Anota alguma coisa no caderno.
E então, em algum momento entre uma coisa e outra, ela pergunta o que ele prefere — e ele percebe que não sabe há quanto tempo parou de ouvir. Não sabe se foram dez segundos ou três minutos. Olha para a própria anotação e não entende o que quis dizer com aquilo. Diz que precisa pensar. Sai do prédio, entra no carro, e fica parado no estacionamento por um tempo que ele não contabiliza.
Ele não é uma pessoa que se perde em reuniões. Passou vinte anos tomando decisões complexas sob pressão, e é justamente por isso que aquilo assusta. Não é a dificuldade da matéria. É outra coisa, que ele não tem nome para.
De noite, deitado, ele consegue formular melhor. Alguma coisa como: minha vida virou de cabeça para baixo, mas eu preciso estar lúcido para decidir. E é exatamente essa a armadilha do momento — as decisões mais consequentes de uma vida costumam ser exigidas justamente no período em que a pessoa está com menos condições de tomá-las.
Talvez você tenha reconhecido alguma coisa aí. Ou talvez esteja pensando em um amigo que está passando por isso agora e que anda respondendo mensagens de um jeito estranho. Se for o caso, de um jeito ou de outro, vale dizer com todas as letras: nada disso significaria que há algo errado com a pessoa. Uma separação desmonta simultaneamente a rotina, o lugar de morar, a estrutura financeira, a rede social e a imagem que alguém tem de si — e não conheço ninguém que atravesse isso sem sofrer.
Sofrer com uma separação não é adoecer
Convém dizer isso antes de qualquer coisa, porque a resistência a procurar um psiquiatra costuma nascer aqui.
A dor de uma ruptura conjugal é uma dor esperada. Ela tem raiva, tem tristeza, tem humilhação, tem alívio, tem culpa — às vezes tudo no mesmo dia, às vezes tudo na mesma hora. Ela vem em ondas, é pior à noite e nos fins de semana, e piora nas datas que antes eram compartilhadas. Isso não é sintoma de nada. É o que acontece quando um vínculo longo se desfaz.
Ninguém precisa de tratamento por estar sofrendo com uma separação. E psiquiatra que transforma toda dor em diagnóstico está prestando um mau serviço.
Mas existe um ponto, e ele é identificável.
O ponto em que a coisa muda de natureza
O que costumo ver é que a virada não acontece na intensidade da dor, e sim no funcionamento.
Sono é o primeiro indicador, e o mais confiável. Uma coisa é dormir mal na semana da conversa difícil. Outra é ter passado seis semanas acordando às quatro da manhã, todos os dias, com o pensamento já em movimento, sem conseguir voltar a dormir. Quando o sono se desfaz e permanece desfeito, o corpo deixa de repor o que gasta, e tudo o mais se degrada a partir daí.
Concentração é o segundo. Não a distração pontual, mas a incapacidade sustentada de ler um documento até o fim, de acompanhar uma reunião, de segurar uma linha de raciocínio sem que ela escorregue. Para quem trabalha com texto, com análise, com decisão — advogado, magistrado, servidor de carreira, executivo — isso não é desconforto: é perda de instrumento de trabalho.
O terceiro é a capacidade de decidir. Ela se degrada de duas maneiras opostas, e ambas aparecem no mesmo período. Ou a pessoa fica incapaz de fechar qualquer questão, revisando a mesma escolha vinte vezes e adiando indefinidamente. Ou passa a decidir de forma abrupta, no impulso, para se livrar do desconforto de ter aquilo pendente.
Quando esses três aparecem juntos e se sustentam por semanas, não estamos mais diante apenas de uma dor legítima. Estamos diante de algo que está cobrando um preço concreto, num momento em que o preço é alto.
Por que isso é grave agora e não em outro momento
Porque as decisões desta fase são, na maior parte, irreversíveis.
A partilha se assina uma vez. O acordo de convivência com os filhos estrutura os próximos anos e é difícil de reformar depois. A saída de uma sociedade, a venda de um imóvel, a renúncia a um direito — tudo isso se decide em um período de poucos meses, e tudo isso vai continuar valendo muito depois de a dor ter passado.
E há duas tentações que aparecem com regularidade.
A primeira é ceder tudo para acabar logo. A pessoa está exausta, não suporta mais o litígio, e concede o que não deveria conceder para comprar silêncio. Chama isso de generosidade ou de desapego. Às vezes é. Às vezes é apenas o desejo de que aquilo pare.
A segunda é a oposta: transformar o processo no lugar onde a raiva vai morar. Cada petição vira instrumento, cada prazo vira campo de disputa, e o processo se estende por anos porque nenhuma das partes quer que ele termine — terminar significaria ter que sentir o que está por baixo.
Quem está dormindo quatro horas por noite há dois meses tem muito menos condições de reconhecer em qual das duas está caindo.
Os filhos
Esse é o ponto em que quase todo mundo se cobra mais e se avalia pior.
O que costumo ouvir é uma variação de: eu estou tentando não descontar neles, mas eu não estou inteiro. E é verdade. Uma pessoa que dorme mal e está com a tolerância reduzida responde diferente, tem menos paciência, se ausenta mentalmente durante o jantar. Não porque não ame, mas porque não há reserva.
Não vou dizer o que fazer com isso — não é o tipo de coisa que se resolve com recomendação genérica. Mas vale notar que essa costuma ser a primeira coisa que melhora quando o sono e a concentração se restabelecem. E vale notar que não estar inteiro não é o mesmo que estar ausente. As duas coisas são frequentemente confundidas por quem se acusa.
Sobre a resistência a procurar um psiquiatra
Ela quase sempre tem três componentes, e todos merecem ser levados a sério.
O primeiro: “eu não sou doente, eu estou passando por uma coisa”. Correto. Uma avaliação não existe para atribuir um diagnóstico a quem não o tem. Existe para distinguir o que é reação esperada do que já ultrapassou esse limite — e essa distinção não se faz sozinho, de dentro, porque de dentro tudo parece igualmente insuportável.
O segundo: “eu não quero nada que me deixe lento”. É uma preocupação legítima para quem sustenta uma função de alta exigência, e deve ser dita na primeira consulta, com essas palavras. Objetivo de tratamento é assunto a ser discutido, não imposto — e “preciso continuar operando” é um objetivo clínico perfeitamente legítimo de se colocar na mesa.
O terceiro é o mais silencioso: procurar ajuda parece admitir que a separação venceu. Que a outra pessoa, ou a situação, conseguiu tirar você do eixo. Esse componente raramente é dito em voz alta e costuma ser o mais determinante.
Sobre o que não se resolve com organização
Há uma parte disso que não é sobre insônia nem sobre concentração.
Uma separação obriga alguém a olhar para escolhas antigas, para o que se sustentou por anos sem examinar, para o papel que se ocupou naquela relação e para o que se repetiu de histórias mais antigas. Esse é o tipo de coisa que se examina bem num espaço de psicoterapia de orientação analítica — não como um método para superar mais rápido, mas como um lugar onde é possível olhar a própria relação com aquilo, sem pressa e sem a obrigação de chegar a uma conclusão útil.
As duas coisas não competem. Uma trata do que está comprometendo o funcionamento agora; a outra, do que vai continuar existindo depois que os autos forem arquivados.
Não é preciso decidir isso hoje
Você não precisa concluir nada. Não precisa se convencer de que está mal o bastante para justificar uma consulta, nem provar nada a ninguém.
Só vale considerar uma coisa: se o sono se desfez, se a concentração não volta e se as decisões que você precisa tomar são das que não se refazem — então não é um mau momento para ter alguém olhando isso com você. Não porque você seja frágil. Porque o custo de decidir sem estar em condições, neste caso específico, é alto demais.
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Dr. Leonardo Sodré é médico psiquiatra e psicoterapeuta em Brasília (CRM-DF 14.206 · RQE 14.761). Doutor em Psiquiatria pela UFRGS e professor na Faculdade de Medicina da UnB. Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento individual.