Sobre o momento em que alguém próximo passa a parecer uma ameaça, e o que Melanie Klein e Wilfred Bion ajudam a entender sobre esse movimento, que atravessa todos os lados.

Ele conhece o cunhado há dezoito anos. Já dividiram churrasqueira, mudança de apartamento e uma madrugada inteira na sala de espera do hospital, na noite em que o sogro foi operado às pressas. Sabe como o outro toma o café, que piada ele vai contar no Natal, como fica quando o time perde.
Há umas três semanas, alguma coisa se deslocou. Não houve briga. Houve uma mensagem encaminhada no grupo da família, um comentário curto no almoço de domingo, um riso no momento errado. E desde então ele se pega fazendo uma coisa nova: relendo o que o cunhado escreve à procura de provas. Prova de que ele sempre foi assim. De que aquela gentileza toda escondia outra coisa. De que o homem que passou a noite ao lado dele no hospital é, no fundo, alguém de quem é preciso se proteger.
A poucos quilômetros dali, o cunhado faz exatamente a mesma coisa. Nenhum dos dois se acha injusto. Os dois têm certeza de que foi o outro que mudou.
Com o segundo turno entre Flávio Bolsonaro e Lula marcado para o dia 25, cenas assim se repetem em muitas casas, nos dois sentidos. E quem as vive costuma notar um detalhe incômodo: a reação parece maior do que o fato. É uma pessoa conhecida, que não mudou de rosto. Mesmo assim, ver o nome dela aparecer no celular dispara uma espécie de alarme no corpo. Talvez você tenha reconhecido essa sensação, de um lado ou de outro da mesa. Ela merece ser entendida antes de ser julgada.
O inimigo quase nunca é um estranho
A raiva mais funda raramente se dirige ao eleitor desconhecido de outro estado. Ela se dirige ao irmão, à amiga de faculdade, ao colega da mesa ao lado. A hostilidade mais quente costuma nascer onde havia proximidade, e isso não é acaso: só quem importa consegue decepcionar desse jeito.
O que acontece nessas semanas não é bem uma mudança de opinião sobre a pessoa. É uma mudança no modo de enxergá-la. Alguém que tinha muitas camadas (o humor, a generosidade, as manias, a história em comum) passa a ser lido por um traço só. O resto some, ou é reinterpretado à luz desse traço. A gentileza vira dissimulação. O silêncio vira provocação. A piada vira ataque.
E o corpo acompanha. O coração acelera quando chega a mensagem, a mandíbula aperta antes do almoço de família, a resposta já está pronta antes de a pergunta terminar. É o funcionamento de quem se sente diante de uma ameaça. O problema é que a ameaça, ali, é alguém que até outro dia sabia o nome do seu cachorro.
Um mundo dividido em bons e maus
Melanie Klein, psicanalista nascida em Viena que fez a maior parte da carreira em Londres, deu nome a esse modo de funcionar em 1946, num artigo chamado Notas sobre alguns mecanismos esquizoides. Todos o conhecem, embora raramente o reconheçam em si: é a posição esquizoparanoide.
O nome assusta mais do que deveria. “Esquizo” vem da ideia de cisão, de partir em dois. “Paranoide” vem do medo de ser atacado. Klein descreveu como, no começo da vida, o bebê ainda não consegue reconhecer que a mãe que alimenta e acalma é a mesma que demora e frustra. Para ele, são duas: uma boa e uma má. Separar as duas é uma solução engenhosa, porque mantém o que é bom a salvo do que ameaça.
O ponto decisivo é que Klein escolheu a palavra “posição”, e não “fase”. Uma fase passa e não volta. Uma posição é um lugar ao qual se retorna, a vida inteira, sempre que a ansiedade sobe o bastante. Adultos maduros, cultos e afetuosos voltam a ela diante de uma doença na família, de uma demissão, de uma separação. E de uma eleição apertada, em que o resultado parece decidir algo sobre quem somos.
Na cisão, o mundo fica mais simples. Há os nossos e há os outros. Não é preciso tolerar a dúvida, nem a contradição, nem a ideia desconfortável de que alguém que pensa tão diferente possa ser uma pessoa decente. Essa simplicidade alivia, e é por isso que custa tanto abrir mão dela.
O que não suporto em mim, encontro no outro
A cisão raramente trabalha sozinha. Junto com ela, Klein deu um lugar central à projeção, o movimento pelo qual aquilo que é insuportável dentro de nós passa a ser percebido fora, em outra pessoa.
Durante uma campanha, todo mundo sente raiva, medo, desprezo, vontade de calar alguém. São sentimentos pesados, que não combinam com a imagem que cada um tem de si. Uma saída silenciosa é localizá-los no adversário. Ele é que é agressivo. Ele é que não escuta. Ele é que foi enganado, ele é que é fanático. E, uma vez que a agressividade está lá, a minha passa a parecer só defesa.
Há um efeito ainda mais traiçoeiro. Tratado como inimigo, o outro acaba reagindo como inimigo, e a profecia se cumpre. Cada um oferece ao outro, sem perceber, a prova de que ele precisava.
Quem acompanha uma discussão entre parentes que votam diferente percebe uma coisa curiosa: as acusações são quase idênticas. Os dois dizem que o outro não pensa por conta própria. Os dois dizem que o outro está cego. Os dois se sentem acuados. Não é coincidência. É o mesmo mecanismo funcionando nas duas cadeiras ao mesmo tempo.
Vale dizer com todas as letras: isso não é privilégio de um lado. Acontece com quem vota em um candidato, com quem vota no outro, com quem anula, com quem lê este texto e com quem o escreve. Nenhuma posição política protege alguém da cisão, e nenhuma é sintoma dela.
Quando o grupo se reúne para lutar
Wilfred Bion, psicanalista britânico, trabalhou com grupos num hospital militar durante a Segunda Guerra e, depois, em Londres. Em Experiências com grupos, de 1961, descreveu como todo grupo funciona em dois níveis ao mesmo tempo. Num deles, pensa, trabalha, lida com a realidade. No outro, age como se estivesse reunido em torno de um pressuposto que ninguém declarou, mas que todos sentem.
Ele descreveu três desses pressupostos básicos. O que mais interessa aqui é o de luta e fuga: o grupo passa a se comportar como se existisse para enfrentar um inimigo ou para escapar dele. Nesse clima, pensar fica difícil. Quem pondera vira suspeito. Quem faz uma pergunta incômoda parece estar fazendo o jogo do outro lado. A dúvida é sentida quase como traição, e o valor de cada um passa a ser medido pela disposição de atacar ou de se afastar.
Basta olhar para o grupo da família, o da turma da escola, o do trabalho. Muitos deles deixaram, nessas semanas, de ser lugar de conversa e passaram a funcionar como trincheira, dos dois lados. E a fuga é a outra face da mesma moeda: sair do grupo, encurtar a visita, inventar um compromisso para não ficar até a sobremesa. Um estudo publicado na revista Science em 2018, sobre o feriado de Ação de Graças nos Estados Unidos logo depois da eleição de 2016, encontrou jantares de 30 a 50 minutos mais curtos quando reuniam famílias de regiões que votaram em partidos opostos. Outros pesquisadores estimaram um efeito menor. Mas quem já olhou o relógio no meio de um almoço de domingo sabe do que se trata.
Ver o outro inteiro
Klein não descreveu só o problema. Descreveu também o movimento que a mente faz quando consegue sair dele, e o chamou, a partir de 1935, de posição depressiva.
De novo, o nome confunde. Não se trata de depressão como doença. Ela usou essa palavra porque esse movimento traz uma certa tristeza: a de perceber que a pessoa que frustra é a mesma que se ama, e que o mal não estava todo do lado de fora. O bebê descobre que a mãe que demora é a mesma que acolhe. O adulto descobre que o cunhado da mensagem encaminhada é o mesmo da sala de espera do hospital.
Juntar as duas imagens dói. Traz ambivalência, traz culpa pelo que foi dito ou pensado, às vezes traz vergonha. Mas traz também o que a cisão não permite: o desejo de reparar, e a possibilidade de discordar de alguém sem precisar transformá-lo em ameaça.
Isso não significa concordar, nem moderar o que se pensa, nem fingir que a divergência é pequena. É possível discordar por inteiro de alguém e ainda assim enxergá-lo por inteiro. Também não é algo que se alcance por decisão ou por argumento. Ninguém se instala de vez na posição depressiva. A vida é um ir e vir entre as duas, e quando a ameaça diminui, a capacidade de ver o outro de novo costuma voltar, aos poucos.
Quando a raiva começa a ocupar tudo
Na maior parte das vezes, isso passa junto com a eleição. A temperatura baixa, as conversas voltam ao futebol e aos filhos, e o cunhado volta a ser o cunhado.
Há situações, porém, em que vale olhar com mais cuidado. Quando a raiva começa a tomar conta do dia e já não se restringe à política. Quando o sono some por várias noites. Quando as rupturas se acumulam, não com uma pessoa, mas com várias. Quando o que se disse num momento de calor deixa a pessoa sem se reconhecer. Quando surgem ideias que assustam. E também quando, semanas depois do resultado, o alarme continua ligado.
Nesses casos, uma psicoterapia de orientação analítica oferece algo próprio. Não é um lugar para mudar de voto nem para ser convencido de nada, e o terapeuta não está ali para dizer quem tem razão na eleição. É um lugar para pensar o que a raiva está carregando. Com frequência, o inimigo de agora ocupa um lugar que já existia antes dele: o de um irmão com quem sempre se competiu, o de um pai que nunca escutava, o de uma parte de si mesmo que nunca foi bem aceita. Quando isso pode ser examinado com calma, sem ninguém aplaudindo e sem ninguém condenando, a cisão perde parte da força.
E o próprio movimento de idealizar e desconfiar aparece também na relação com o terapeuta, onde pode ser visto acontecendo ao vivo. Isso é muito diferente de ler a respeito.
O cunhado é o homem daquela mensagem e também o da madrugada no hospital. Do outro lado da cidade, talvez ele esteja tentando juntar as mesmas duas imagens.
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Dr. Leonardo Sodré é médico psiquiatra e psicoterapeuta em Brasília (CRM-DF 14.206 · RQE 14.761). Doutor em Psiquiatria pela UFRGS e professor na Faculdade de Medicina da UnB. Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento individual.