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Saúde Mental dos Médicos

Autoprescrição, adiamento por anos, abandono precoce do tratamento. Freud e Kohut ajudam a entender por que a resistência do médico a ser paciente é interna, não social — e o que muda quando um psiquiatra reconhece essa dinâmica.

9 min de leitura

Existe um paradoxo específico da profissão médica que raramente é nomeado com a clareza que merece: os médicos, que passam a vida cuidando da saúde de outros, adoecem mais e se tratam pior. Estudos consistentes ao longo das últimas décadas mostram taxas elevadas de depressão, ansiedade, uso de álcool e suicídio nessa população — sempre acima da média geral. Mais impressionante do que a incidência é a resistência a buscar ajuda quando o quadro se instala. Médicos deprimidos costumam adiar por anos o momento de procurar tratamento. Quando procuram, tendem a interromper cedo. E, muitas vezes, autoprescrevem no meio do caminho.

A explicação corrente para esse padrão gira em torno de duas hipóteses: estigma profissional — medo de que colegas comentem e que a carreira sofra — e falta de tempo para se cuidar. Essas duas hipóteses têm parte de verdade, mas não são o núcleo da questão. O núcleo é outro, e tem raiz na psicanálise que Freud deixou. É o que ele descreveu, em outro contexto, como ferida narcísica: reconhecer-se no lugar oposto àquele que a identidade sustentava. Para o médico, esse lugar oposto é o lugar do paciente. E o que resiste ao tratamento, na maior parte dos casos, não é o mundo externo. É a estrutura interna que se organizou em torno de uma identidade específica que ser paciente ameaça.

Este texto trata dessa resistência interna. Não porque nomear ela resolva o problema — a defesa opera precisamente por não ser vista —, mas porque, quando o médico reconhece o mecanismo em si, algo se afrouxa. E é nesse afrouxamento que a porta do consultório começa a se abrir.

A identidade médica se organiza em torno do lugar contrário

Para entender a resistência específica desse grupo, vale reconhecer o que a formação médica constrói. A profissão médica é organizada, desde os primeiros anos de faculdade, em torno de uma posição precisa: quem sabe, quem cura, quem detém saber-poder sobre o corpo do outro. Essa posição não é aprendida apenas tecnicamente — é internalizada como estrutura de identidade. O jaleco não é acessório profissional; é marcador de lugar simbólico. A hierarquia dentro do hospital, a relação com o paciente, a linguagem médica que outros não compreendem, tudo contribui para consolidar essa identidade ao longo de anos.

O problema é que essa identidade, sustentada por décadas de treinamento, entra em choque direto com a experiência de adoecer. Reconhecer-se doente exige aceitar-se no lugar oposto àquele que a identidade sustentava: dependente, precisando de outro, sem controle sobre o próprio corpo, sem o saber que colocaria o próprio profissional na posição do curador. Esse choque não é sofrimento comum. É o que Freud descreveu como ferida narcísica — não uma humilhação passageira, mas uma ruptura na estrutura mesma que sustentava a autoestima e a identidade profissional.

É por isso que médicos, com uma frequência que a psiquiatria observa há décadas, encontram formas variadas de não passar por essa aceitação. Cada uma dessas formas parece racional na superfície. Todas, no fundo, servem à mesma função: manter a identidade intacta ao custo do próprio tratamento.

As defesas específicas dessa população

A primeira defesa é a autoprescrição. É a mais óbvia, e a mais estudada. Médicos com sintomas depressivos ou ansiosos frequentemente escrevem receita para si mesmos — antidepressivo, ansiolítico, indutor do sono. Do ponto de vista prático, a autoprescrição é conhecida como má prática clínica: falta objetividade, falta segundo olhar, falta acompanhamento. Do ponto de vista psíquico, ela serve a função diferente: preserva o médico no lugar do prescritor. Ele continua sendo quem cuida, mesmo quando o cuidado é dirigido a si próprio. A identidade não precisa ser reorganizada. A defesa narcísica se mantém.

A segunda defesa é o adiamento indefinido. Sintomas que qualquer médico reconheceria como indicação de avaliação psiquiátrica em um paciente qualquer são atribuídos, em si mesmo, a “excesso de trabalho”, “fase difícil”, “essa semana pesada”. Cada explicação circunstancial é razoável isoladamente. Somadas ao longo de meses ou anos, formam um padrão de negação sistemática. Isso não é preguiça nem falta de tempo — é a estrutura psíquica adiando o encontro que exigiria reorganização identitária.

A terceira defesa é a escolha estratégica de profissional. Quando o médico finalmente busca ajuda, tende a escolher um psiquiatra jovem, de outra especialidade, de outra cidade — alguém que não esteja no mesmo circuito profissional. A racionalização é sigilo, e essa parte tem alguma verdade. Mas a função psíquica secundária é evitar a inversão hierárquica: procurar psiquiatra que seria par ou superior na hierarquia médica costuma ativar mais defesa. É mais tolerável ser paciente de alguém que não ameaça a identidade profissional em outros contextos.

A quarta defesa — e a mais frequente causa de recaída — é o abandono precoce do tratamento. Após duas ou três consultas, com melhora sintomática inicial, o médico se convence de que “já resolveu sozinho” e interrompe. Do ponto de vista clínico, é interrupção precoce que quase sempre volta a piorar. Do ponto de vista psíquico, é a defesa fazendo o que precisa fazer: reestabelecer o lugar de quem cuida antes que a posição de quem é cuidado se consolide.

O papel do estigma social — real, mas secundário

Vale reconhecer honestamente que o estigma social também existe, e não é irrelevante. Meio médico é pequeno, informações circulam, existe temor real de que colegas comentem, de que se atrapalhe promoção, de que se acabe visto como frágil em um ambiente que valoriza resistência. Esse medo é fundado — não é paranoia.

O ponto que a experiência clínica sustenta é que, mesmo quando o estigma externo é neutralizado — quando o médico tem acesso a psiquiatra fora do circuito, com sigilo absoluto garantido, sem risco real de exposição — a resistência costuma continuar. Menos intensa, mas ainda presente. Isso indica que o estigma externo é fator amplificador, não fator determinante. O determinante é interno.

Reconhecer isso muda o que se faz clinicamente. Não basta oferecer sigilo — embora ele seja necessário. Também é preciso reconhecer, no consultório, que o próprio processo de aceitar-se no lugar de paciente é matéria clínica, não etapa prévia. É trabalho terapêutico direto. E é por isso que o tratamento de médicos, feito bem, tem características próprias.

O que muda no tratamento quando isso é reconhecido

Um psiquiatra que trata médicos e reconhece a dinâmica narcísica em jogo faz três coisas de forma diferente do tratamento genérico.

Primeiro, nomeia a defesa. Não como acusação, mas como reconhecimento. Reconhecer que a autoprescrição, o adiamento, o abandono precoce são manifestações de uma estrutura psíquica compreensível — não sinais de má vontade ou de fraqueza — libera o paciente de se envergonhar do próprio padrão. E a vergonha, uma vez nomeada, deixa de operar em silêncio.

Segundo, propõe um setting que respeita a hierarquia psíquica em jogo. Consulta de tempo longo, prontuário fora de qualquer sistema compartilhado, atendimento em ambiente que não é o mesmo dos colegas, comunicação clara sobre o que fica em sigilo. Isso não é preciosismo. É condição para que a defesa afrouxe.

Terceiro, integra a dimensão psicoterapêutica desde o início. A farmacoterapia sozinha, para essa população, tende a reforçar o modelo médico de “tomar remédio e melhorar”, que é justamente o modelo dentro do qual a defesa opera. Psicoterapia integrada abre espaço para a leitura da própria estrutura em jogo, permitindo elaboração de camadas que a farmacoterapia isolada não toca.

A saída passa por reconhecer-se no lugar

Não há atalho para esse tratamento. O que se pede do médico paciente é que aceite, ao longo do processo, uma reorganização identitária: reconhecer-se como pessoa antes de reconhecer-se como profissional, aceitar dependência sem que isso destrua a autoestima, permitir-se ser cuidado sem que isso deslegitime o cuidador que também é. Não é aceitação instantânea. É trabalho de meses, às vezes anos.

Mas é possível. E quando acontece, o desfecho é notável — não apenas em melhora sintomática, mas em qualidade de vida, em recuperação da capacidade de descansar, e em uma relação diferente com a própria vulnerabilidade que costuma reverter, inclusive, em melhor relação com os próprios pacientes.

Se você é médico e está adiando esse tratamento há tempo, vale reconhecer que a resistência que sente não é fraqueza de caráter. É estrutura psíquica funcionando como sempre funcionou — protegendo uma identidade que ela mesma sustenta. Reconhecer isso é o primeiro passo. O segundo é procurar quem entenda essa dinâmica e possa acompanhá-la sem julgamento. É o que uma avaliação psiquiátrica com esse recorte se propõe a fazer.

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Dr. Leonardo Sodré é médico psiquiatra em Brasília (CRM-DF 14.206 · RQE 14.761), com formação e interesse em psicanálise. Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento individual.