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Saúde Mental dos Médicos
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Médico sentado no carro, no estacionamento do hospital, antes de conseguir ir para casa

Existe uma hora do dia em que isso costuma aparecer. Não é no meio do plantão, nem na consulta difícil. É depois. O médico chega ao carro, senta, põe a chave na ignição — e fica ali. Alguns minutos parado, sem pensar em nada exatamente, antes de conseguir dar partida.

Ninguém fala muito sobre esses minutos. Não entram em conversa de corredor, não aparecem em pesquisa de clima institucional, não têm nome. E são, provavelmente, uma das experiências mais compartilhadas da medicina hoje.

Quando um médico chega ao consultório e conta o que vem acontecendo, a descrição costuma ser precisa. Ele nomeia a sobrecarga administrativa, o prontuário desenhado para faturamento e não para clínica, a produtividade medida por volume, a autonomia raspada ano após ano. A análise é impecável. E é correta.

Então pergunto se ele já procurou alguma ajuda para si mesmo. A resposta vem quase sempre no mesmo tom, com um leve espanto pela pergunta: “Procurar o quê? O problema não está em mim.”

Ele tem razão. O que adoece os médicos hoje não é fragilidade pessoal, nem falta de resiliência — palavra que, dita a quem atravessou anos de formação sob pressão que ninguém de fora imagina, chega a ser ofensiva. Tem a ver com o modo como o trabalho médico foi reorganizado nas últimas décadas, e isso não é impressão minha.

Talvez você tenha reconhecido alguma coisa nessa descrição. Ou talvez tenha pensado em um colega — alguém que anda mais calado do que costumava andar, que sumiu das confraternizações, que responde “tudo bem” rápido demais.

Se for o caso, de um jeito ou de outro, vale dizer: não haveria nada de errado nisso. Seria uma resposta previsível a condições que adoeceriam qualquer pessoa.

O que costumo ver é que entender a causa e estar cuidado são coisas diferentes. Uma não traz a outra junto. E é sobre essa distância que eu queria conversar.

Quase todo mundo atravessa isso sozinho

Um levantamento recente ouviu milhares de médicos sobre esgotamento e sofrimento psíquico. Os números são o que se poderia imaginar: perto de metade relata esgotamento em algum momento, quase um quarto descreve algum grau de depressão, a maioria esmagadora aponta o trabalho como origem.

Mas o achado que mais me chamou atenção não foi nenhum desses. Foi outro, mais quieto: a maior parte dos médicos que estão sofrendo atravessa isso sem contar a ninguém. Não procuram avaliação, não falam com colegas, não levam o assunto para casa inteiro.

Quase seis em cada dez disseram que confidenciar a outro médico não seria uma opção. Entre os que nunca buscaram ajuda, quase metade respondeu que também não buscaria.

Se você está nessa situação, isso talvez seja o mais importante que este texto tem a dizer: não é você que está sendo especialmente orgulhoso ou teimoso. É assim para quase todo mundo. O isolamento não é um traço do seu caráter — é praticamente parte do quadro.

O que a espera costuma cobrar

Há uma coisa nesses dados que me parece importante e que raramente aparece nas conversas sobre o assunto.

Médicos mais velhos relatam, com muito mais frequência, um esgotamento que já dura mais de dois anos. Os mais jovens estão majoritariamente em fases iniciais, de alguns meses. Cruzando isso com a gravidade — mais de quatro em cada dez classificam o próprio estado nos níveis mais intensos —, o desenho que aparece é de algo que se sedimenta.

Não costuma passar sozinho. Vai ficando.

E há um custo que não aparece em métrica nenhuma, porque é pago longe do hospital. Quase três em cada quatro médicos disseram que aquilo já tinha machucado suas relações mais próximas. Três anos antes, eram menos.

Isso não é dito aqui para assustar ninguém. É que, na minha experiência, quando um médico finalmente decide procurar alguém, a frase que aparece com mais frequência é alguma versão de “eu devia ter vindo antes”. Não por culpa — por constatação. Ele percebe que os anos anteriores tinham sido mais difíceis do que precisavam ser.

O que uma consulta é, e o que ela não é

Existe um mal-entendido que atrapalha bastante, e vale desfazer.

Procurar avaliação não é aceitar que você é frágil, nem concordar com quem diz que faltou resiliência. Não é ir consertar uma peça para devolver ao mesmo maquinário. Nada do que se passa em uma consulta absolve o sistema de coisa alguma.

Do ponto de vista clínico, há uma pergunta que só uma avaliação responde bem: o que está acontecendo ainda é esgotamento ligado às condições de trabalho, ou já se tornou um quadro que segue por conta própria? Essa distinção importa, porque as duas coisas não caminham do mesmo jeito. E é uma pergunta que não se responde sozinho — não por falta de conhecimento, mas porque olhar para si mesmo com a clareza com que olhamos para os outros é justamente o que não conseguimos fazer.

E há o que um espaço de análise oferece, que é outra coisa e vale ser dito com precisão. Não é treinamento para tolerar melhor o insuportável, nem repertório de técnicas de manejo de estresse. É um lugar onde é possível examinar a própria relação com o trabalho — o que se depositou ali ao longo dos anos, o que se esperava em troca, que lugar aquilo ocupa na vida de alguém que se organizou inteiramente em torno disso.

Quando um médico mais velho diz que não pode largar os residentes à própria sorte, e por isso segue, há ali algo que ultrapassa a análise das condições de trabalho. Há uma posição sendo sustentada, a um custo, por razões que valem ser olhadas de perto — com alguém, sem pressa.

Se alguma coisa aqui te encontrou

Você não precisa concluir nada agora. Não precisa aceitar nenhum diagnóstico, nem admitir que está mal, nem tomar decisão sobre coisa alguma.

A única coisa que eu gostaria de deixar é a separação entre duas questões que costumam vir grudadas: o que causou isso e o que fazer com você são perguntas diferentes. Você pode continuar inteiramente certo sobre a primeira — e provavelmente está — e ainda assim merecer uma resposta para a segunda.

Estar certo sobre a causa não cuida de ninguém. E você passou a vida cuidando.


Se em algum momento fizer sentido conversar sobre isso, atendo médicos em consulta particular, em ambiente reservado e sem qualquer vínculo com estruturas institucionais. Sem compromisso de nada além de uma conversa — WhatsApp da secretária Bárbara ou informações sobre a consulta.