O celular vibra no meio da tarde e é o grupo da família de novo. Sobre o custo da briga, o custo do silêncio e o que se perde quando estar ali vira disputa.

O celular vibra em cima da mesa no meio de uma reunião, e pela pré-visualização já dá para saber de onde vem. “Família”, com um coração depois do nome, do jeito que alguém batizou o grupo num Natal de muitos anos atrás. Dezenas de mensagens não lidas desde a hora do almoço.
Começou com um vídeo encaminhado pelo tio, o mesmo que manda bom dia com foto de flor toda manhã. A prima respondeu com um link do lado oposto. Alguém mandou um áudio longo. A tia mais velha escreveu “gente, vamos parar, somos família”, e ninguém respondeu a ela. Agora há um silêncio de vinte minutos, desses que todo mundo no grupo está lendo.
À noite, a pessoa abre, lê tudo, digita uma resposta. Apaga. Escreve outra, mais curta. Apaga de novo. Pensa em sair do grupo, imagina o aviso aparecendo para todos, e desiste. Bloqueia a tela. Dez minutos depois, abre outra vez para ver se alguém disse alguma coisa.
Talvez a cena seja exatamente a sua. Talvez seja a de alguém próximo, que anda mais calado nos almoços de domingo. O que ela tem de comum em quase todas as versões é a sensação de estar diante de três saídas ruins, brigar, sumir ou engolir, sem encontrar uma quarta.
O grupo nunca foi só um grupo
Visto de fora, parece pouca coisa: uma conversa de aplicativo, cheia de figurinha, lembrete de aniversário e corrente antiga. Visto de dentro, é outra coisa. O grupo da família virou, para muita gente, a sala de estar que já não existe. É ali que se fica sabendo que a avó foi ao médico, que aparecem as fotos do sobrinho recém-nascido, que a família continua sendo família mesmo espalhada por cidades diferentes.
Por isso ele carrega um peso que nenhum outro grupo carrega. Estar ali é uma forma de pertencer. E aquilo a que se pertence, nesse caso, não é só a família real, com suas manias e mágoas antigas, mas também a família como se gostaria que ela fosse: a da foto de fim de ano, todo mundo sorrindo, ninguém brigado com ninguém. Essa família idealizada mora em boa parte naquele grupo, e é ela que parece ameaçada quando a política entra.
Quando alguém diz que está pensando em sair do grupo, raramente está falando de um aplicativo. Está falando de sair de um lugar.
A mensagem encaminhada que fere
Há uma dor particular em receber, no grupo da família, uma mensagem que não foi escrita para você e mesmo assim cai em cima de você. Ela não tem destinatário. Chegou encaminhada, às vezes com a marca de que já circulou muito antes de chegar ali. Quem enviou não escreveu aquilo. Mas escolheu.
E é a escolha que machuca. Num jornal, num perfil qualquer, a mesma frase passaria quase despercebida. No grupo da família, ela diz alguma coisa sobre como aquela pessoa, que conhece você desde criança, enxerga o lado em que você está. Às vezes diz, sem querer, como enxerga você. O conteúdo da mensagem pesa menos do que a sensação de ter virado, para alguém tão próximo, o outro.
Isso vale nas duas direções, e convém não esquecer. O tio que se sentiu atingido pelo link da prima sentiu exatamente o que ela sentiu com o vídeo dele. Cada um, do seu lado, está convencido de que foi o primeiro a ser ferido, e cada um tem a sua prova guardada no histórico da conversa.
Quando o grupo entra em modo de combate
O psicanalista inglês Wilfred Bion, que trabalhou com grupos durante e depois da Segunda Guerra e reuniu suas observações em Experiências com grupos (1961), notou que todo grupo oscila entre dois jeitos de funcionar. Num deles, está voltado para a tarefa que o reúne e consegue pensar. No outro, passa a agir como se estivesse reunido por um pressuposto que ninguém declarou em voz alta. Um desses pressupostos ele chamou de luta e fuga: o grupo se comporta como se existisse apenas para combater um inimigo ou escapar dele.
O grupo da família, nestas semanas, oscila exatamente assim. Em dias comuns, a tarefa dele é simples, manter as pessoas ligadas umas às outras. Em tempo de campanha, ele pode escorregar para a luta e a fuga sem que ninguém perceba o momento da passagem. Quem briga está lutando. Quem silencia as notificações, ou sai, muitas vezes está fugindo. E quem fica calado lendo tudo de madrugada costuma estar fazendo as duas coisas por dentro.
O que Bion ajuda a ver é que, nesse modo, o grupo deixa de pensar. Não porque as pessoas sejam incapazes, mas porque a lógica da luta e da fuga não precisa de pensamento, precisa de lado. Por isso as discussões no grupo parecem tão iguais umas às outras. E por isso ninguém sai delas tendo mudado de ideia.
O custo da briga e o custo do silêncio
Muita gente já fez a sua escolha. Em julho de 2022, numa pesquisa do Datafolha com eleitores brasileiros, 53% disseram ter parado de postar sobre política em aplicativos de mensagem, e 49% contaram ter deixado de conversar sobre o assunto com amigos e familiares para evitar discussões. Perto de metade dos entrevistados, em cada pergunta, preferiu calar.
É compreensível. A briga cobra caro: a noite mal dormida, a frase que não volta depois de enviada, a sensação de ter sido, por alguns minutos, alguém que não se reconhece. Mas o silêncio também tem preço, e esse costuma ser cobrado mais devagar. Quem engole tudo vai ficando um pouco ausente. Responde aos aniversários com um emoji e mais nada. Deixa de mandar as fotos. Chega ao almoço de domingo já cansado de uma conversa que nem aconteceu. O ressentimento que não se diz não desaparece. Ele se acumula, e muitas vezes vaza mais tarde, num assunto que não tem nada a ver com política.
Não existe saída sem custo. Existe a escolha de qual custo se está disposto a pagar, e essa escolha costuma ser melhor quando é feita de olhos abertos, e não no impulso da mensagem das onze da noite.
Estar no grupo sem precisar ganhar
Sair do grupo é tratado às vezes como ofensa, às vezes como covardia. Pode não ser nenhuma das duas. Há momentos em que se afastar de um lugar que só tem machucado é uma forma de preservar a relação, e não de rompê-la, desde que o vínculo continue existindo por outros caminhos. Silenciar pode ser a mesma coisa em escala menor. E ficar também pode ser uma escolha legítima, mesmo para quem discorda de quase tudo o que lê.
O que pesa não é tanto qual das três se escolhe, mas para quê. Sair para punir é diferente de sair para respirar. Ficar calado por medo é diferente de ficar calado porque aquela discussão, ali, não vale o desgaste. Vistas de fora, as atitudes são iguais. Por dentro, são opostas, e é por dentro que cobram.
Há ainda uma possibilidade menos óbvia, que é estar no grupo sem precisar ganhar a discussão. A necessidade de ganhar quase sempre esconde outra, a de ser reconhecido por aquelas pessoas: ouvir delas que se tem razão, ter o próprio lugar confirmado. Essa confirmação não vem por argumento. Ninguém, numa família, foi convencido por uma resposta bem escrita no grupo. Quando se percebe que o que se procurava ali era reconhecimento, e não vitória, às vezes se consegue ficar sem se ferir tanto, e sem ferir.
Quando o grupo ocupa mais espaço do que deveria
Para a maior parte das pessoas, o desconforto com o grupo acompanha o calendário e baixa quando a eleição passa. Para algumas, não. Vale prestar atenção quando o grupo começa a ocupar o dia: quando se acorda pensando no que foi dito, quando a conversa continua na cabeça durante o trabalho, quando o sono passa a falhar por causa dela. E vale prestar mais atenção ainda quando a mágoa parece maior do que a mensagem. Quando uma frase encaminhada pelo irmão dói como a confirmação de algo antigo, de um lugar que sempre se ocupou na família, provavelmente não é só da eleição que se trata.
No consultório, é comum que uma briga no grupo da família seja a porta de entrada para conversas que nada têm de política. A irmã que sempre teve razão. O pai que nunca escutou. O lugar de quem cede para não brigar, ocupado desde muito cedo. A eleição só deu a essas histórias uma roupa nova.
Uma psicoterapia de orientação analítica oferece um lugar para pensar o que a briga, ou o silêncio, estão carregando. Não para decidir por ninguém se deve sair ou ficar, mas para que essa decisão possa ser tomada a partir de algo além da raiva do momento. E quando o sofrimento passa a tomar conta do dia, faz sentido procurar uma avaliação, em vez de esperar que o fim da campanha resolva sozinho.
O grupo vai continuar ali depois do dia 25, com as fotos, os aniversários e o bom dia de sempre. O que pode mudar é a pergunta que cada um leva para dentro dele.
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Dr. Leonardo Sodré é médico psiquiatra e psicoterapeuta em Brasília (CRM-DF 14.206 · RQE 14.761). Doutor em Psiquiatria pela UFRGS e professor na Faculdade de Medicina da UnB. Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento individual.