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Condições e Diagnósticos

Irritação com qualquer coisa, vontade de sumir do assunto, um cansaço que não vem de esforço nenhum. Sobre o desgaste da reta final e como distinguir o cansaço do momento de um quadro que já estava ali.

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Ilustração para o artigo: Exaustão eleitoral: quando o cansaço não é só da eleição

Foi por causa de um pote sem tampa. Ela abriu a geladeira, encontrou o feijão destampado na prateleira de cima, e a frase que saiu foi muito maior do que o pote. O marido olhou espantado. Ela também se espantou, um segundo depois. Não estava com raiva dele, e não saberia dizer com o que estava.

Era quinta-feira à noite. Durante o dia, tinha silenciado dois grupos e saído de um terceiro, desligado o rádio do carro quando o assunto voltou e mudado de conversa três vezes quando alguém no trabalho começou a falar do domingo. Não por convicção, nem por medo de discutir. Por cansaço. Um cansaço que não parecia vir de esforço nenhum, mas que pesava no corpo inteiro.

Se tivesse coragem de dizer em voz alta, diria que a vontade era de sumir até segunda-feira. Não acompanhar, não opinar, não ouvir ninguém. Acordar quando tudo tivesse passado.

Faltam dois dias para o segundo turno entre Flávio Bolsonaro e Lula. Quem pretende votar num, quem pretende votar no outro e quem ainda não decidiu chegam a esta sexta-feira, em boa parte, do mesmo jeito: gastos.

Um cansaço que não vem do corpo, mas pesa nele

O cansaço físico tem uma lógica conhecida: a pessoa se esforça, se desgasta, descansa e se recupera. O que muita gente sente nesta reta final é de outra natureza. Ninguém carregou peso. Mas houve meses de campanha, um primeiro turno apertado e três semanas de prorrogação, e durante todo esse tempo houve um trabalho silencioso acontecendo por dentro.

É o trabalho de segurar o que se pensa no almoço de família. De medir a frase antes de mandar no grupo. De ouvir um colega dizer algo que incomoda e decidir, em dois segundos, se vale a pena responder. De antecipar a discussão que talvez aconteça no fim de semana. De sustentar uma expectativa sobre o resultado, e o medo do resultado contrário, sem ter onde pôr nenhum dos dois. Esse trabalho não aparece na agenda, mas consome.

Não é um fenômeno só nosso. Em 2024, uma pesquisa da Associação Americana de Psicologia encontrou 69% dos adultos americanos dizendo que a eleição presidencial era uma fonte significativa de estresse; em 2016, eram 52%. Eleições polarizadas cansam em qualquer língua.

A irritação que escolhe o alvo errado

A irritação costuma ser o primeiro sinal, e quase sempre erra o endereço. Raramente se dirige ao debate, ao candidato ou à pesquisa. Vai parar no pote sem tampa, no filho que pergunta a mesma coisa duas vezes, no motorista da frente, no colega que fala alto ao telefone. A tolerância baixou, e qualquer atrito pequeno ganha o tamanho de uma afronta.

Ela também não respeita fronteiras políticas. Há quem se irrite com o tio que vota diferente e, na mesma semana, com a prima que vota igual, porque ela não para de falar do assunto. Há quem se irrite consigo mesmo, por ter entrado numa discussão que tinha prometido evitar, ou por ter ficado calado quando achava que devia falar.

Vale dizer com clareza: essa irritação, nessas condições, não é defeito de caráter. É o que acontece com uma pessoa que passou semanas com a margem de tolerância consumida por um assunto que não sai de cena. O problema não é senti-la. É não perceber de onde ela vem, e deixar que faça estragos em relações que não têm nada a ver com isso.

Lutar ou sumir: duas saídas para a mesma ameaça

A vontade de sumir do assunto costuma vir com uma pitada de vergonha, como se fosse desinteresse, covardia ou falta de compromisso. Vale olhar para ela de outro jeito.

O psicanalista britânico Wilfred Bion, que trabalhou com grupos durante e depois da Segunda Guerra, descreveu em Experiências com grupos (1961) estados em que um grupo deixa de lado a tarefa que tem e passa a se comportar como se estivesse reunido por outro motivo, nunca dito, mas compartilhado por todos. Chamou esses estados de pressupostos básicos. Num deles, o de luta e fuga, o grupo age como se houvesse um perigo e só existissem duas respostas possíveis: enfrentar ou escapar. O que interessa aqui é que luta e fuga aparecem no mesmo pressuposto. São duas saídas para a mesma sensação de ameaça.

Uma campanha polarizada empurra muita gente para esse estado ao mesmo tempo. Por isso a mesma pessoa que de manhã está pronta para o embate, à noite só quer desaparecer. Não são duas pessoas diferentes, nem duas atitudes opostas. É o mesmo alarme, ora gritando, ora correndo.

Bion contrapunha a esses estados o que chamava de grupo de trabalho: aquele que consegue se ocupar da tarefa que tem pela frente e pensar sobre ela. O que mais se perde nestas semanas talvez não seja a calma. É a capacidade de pensar com algum espaço, sem que tudo vire ataque ou fuga.

Cansaço do momento ou um quadro que já estava ali

Esta é a distinção que mais importa, e nem sempre é fácil de fazer sozinho.

O cansaço do contexto tem algumas marcas. Ele está colado ao assunto: melhora quando a pessoa consegue passar um dia longe dele e piora quando o tema volta. Deixa espaço para outras coisas: um almoço bom ainda é bom, uma conversa com um amigo sobre qualquer outro tema ainda alivia, o sono se recupera quando tem chance. E tem data para diminuir. Nas semanas seguintes ao resultado, com mais ou menos ressaca, ele tende a ceder.

Há casos em que o quadro é outro. A eleição não criou o cansaço; deu a ele uma explicação conveniente. Quando a pessoa olha com honestidade, percebe que já estava sem energia antes de a campanha começar. Que o desinteresse não é só pela política: atinge o trabalho, os amigos, as coisas que antes davam prazer, inclusive as que não têm nada a ver com o país. Que a irritação não precisa de motivo para aparecer. Que o sono está ruim mesmo nos dias calmos, o apetite mudou, a concentração encurtou, e uma sensação de peso acompanha a pessoa ao acordar, antes de qualquer notícia. Às vezes é uma ansiedade que já existia, com outros temas, e que encontrou na eleição um assunto novo e muito mais aceitável socialmente.

Nesses casos, “é a eleição” funciona como álibi. É uma explicação que todo mundo aceita, que não envergonha ninguém e que promete se resolver sozinha no domingo. Por isso mesmo pode adiar, por semanas ou meses, uma avaliação que já vinha sendo necessária.

Em quem já tem um transtorno do humor diagnosticado, irritação persistente, noites curtas sem sensação de cansaço ou uma energia muito acima do habitual também podem ser outra coisa, e merecem ser levadas ao médico que acompanha, sem esperar a eleição passar.

O que as próximas semanas podem mostrar

O domingo vai passar, e as semanas seguintes funcionam, de certo modo, como uma informação clínica. Se o barulho diminui e o cansaço diminui com ele, provavelmente era do contexto. Se o barulho diminui e o cansaço fica, a eleição estava cobrindo alguma coisa, e não causando.

Mas há sinais que não pedem espera. Quando o sono some por várias noites seguidas. Quando o sofrimento passa a tomar conta do dia, e a pessoa não consegue mais trabalhar, cuidar da casa ou estar com quem gosta. Quando surgem ideias que assustam. Nesses casos, a avaliação especializada não deve esperar o resultado de eleição nenhuma.

Uma avaliação psiquiátrica cuidadosa serve justamente para fazer a distinção que este texto tenta descrever: o que é desgaste de um período difícil e o que é um quadro que pede tratamento próprio. Ela olha a história, o tempo, o corpo, e não só o que a pessoa está sentindo nesta semana.

E há um lugar para a psicoterapia de orientação analítica que vai além de separar uma coisa da outra. A irritação destas semanas, a vontade de sumir, a raiva desproporcional de alguém próximo costumam carregar mais do que política. Às vezes uma decepção antiga com a família, que reapareceu à mesa do almoço. Às vezes um medo de perder o chão muito anterior a qualquer candidato. Ter onde examinar isso com calma, sem precisar defender posição nem ser convencido de nada, costuma devolver à pessoa algo que a campanha tirou: a possibilidade de pensar sobre o que sente, em vez de apenas reagir.

A eleição termina no domingo. O que não terminar com ela merece ser olhado com atenção.

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Dr. Leonardo Sodré é médico psiquiatra e psicoterapeuta em Brasília (CRM-DF 14.206 · RQE 14.761). Doutor em Psiquiatria pela UFRGS e professor na Faculdade de Medicina da UnB. Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento individual.