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Condições e Diagnósticos
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Ilustração para o artigo: Quando o processo de divórcio começa a cobrar do corpo

Três e dez da manhã.

Acordou sem motivo. Não foi barulho, não foi sonho, não foi nada. Simplesmente abriu os olhos e a cabeça já estava em velocidade máxima — na petição que chegou na sexta, na frase que o advogado da outra parte usou, na expressão da juíza quando ouviu aquele trecho. Já ensaiou três respostas. Já reescreveu mentalmente um parágrafo inteiro. Já calculou quantos dias faltam para a audiência.

Vira para o lado, olha o celular, calcula quantas horas ainda dá para dormir. Duas e meia, se pegar no sono agora. Não vai pegar.

Às seis o despertador toca e o dia começa igual aos outros: a agenda cheia, os prazos que não pararam de correr só porque a vida pessoal desmontou, as reuniões em que é preciso estar inteiro. E, no meio da tarde, aquela sensação estranha de ter lido três páginas de um documento sem ter absorvido uma linha.

Isso está assim há sete meses. Ou catorze. Ou dois anos, com uma perícia no meio.

Quando alguém chega ao consultório nesse estado, a frase de abertura costuma ser mais ou menos esta: “não é depressão, é só o processo — quando isso acabar eu volto ao normal”. Dita com convicção, e com boa razão para a convicção. É verdade que existe uma causa externa clara. É verdade que qualquer pessoa naquela situação estaria mal.

Talvez você tenha reconhecido a sua rotina nessa descrição. Ou talvez tenha pensado em um colega — alguém que está no meio de um litígio desses e que anda com uma qualidade de presença diferente nas reuniões. Se for o caso, de um jeito ou de outro, vale dizer de saída: não haveria nada de errado nisso. Um divórcio litigioso prolongado é uma das exposições ao estresse mais pesadas que uma pessoa adulta pode atravessar, e sofrer com ele é uma resposta previsível, não um sinal de fragilidade.

Não é um evento. É uma exposição prolongada.

Aqui está a distinção que quase nunca é feita, e que muda tudo na leitura do que está acontecendo com você.

Existem acontecimentos difíceis que têm data. Acontecem, doem muito, e depois começa o processo de reorganização. O organismo responde com intensidade e depois volta ao repouso.

Um litígio não é assim. Ele é uma sucessão de picos com intervalos irregulares, ao longo de meses ou anos: a citação, a contestação, a audiência que é remarcada duas vezes, o estudo psicossocial, a perícia, o parecer que chega numa sexta-feira à noite, o recurso, a nova audiência. Cada um desses momentos ativa o mesmo estado de alerta. E entre um e outro não há retorno completo ao repouso — porque a qualquer momento pode chegar uma intimação.

O organismo humano lida razoavelmente bem com estresse agudo e intenso. O que ele não faz bem é permanecer em alerta por período indefinido, sem previsão de término. E “sem previsão de término” é a característica que define um processo litigioso: ninguém sabe quando acaba, e cada expectativa de conclusão que se frustra recomeça a contagem.

O que o corpo faz quando não existe linha de chegada

Isso aparece de formas concretas, e vale nomeá-las porque elas costumam ser atribuídas a outras coisas.

O sono muda de arquitetura. Não é insônia de início — muita gente cai no sono de exaustão. É o despertar da madrugada, quase sempre no mesmo horário, com a cabeça em atividade plena. E é o sono que não restaura: dorme-se seis horas e acorda-se como se não tivesse dormido.

A atenção fica sequestrada. Uma parte da capacidade de processamento fica permanentemente alocada no processo, mesmo quando você está fazendo outra coisa. É por isso que a leitura fica improdutiva e as reuniões passam por cima. Não é falta de foco. É foco ocupado.

A irritabilidade sobe. Aparece primeiro em quem está mais perto — a equipe, os filhos, o sócio. É uma das primeiras coisas que outras pessoas notam e uma das últimas que a própria pessoa reconhece.

O corpo entra na conta. Tensão cervical, mandíbula travada ao acordar, alterações de apetite e peso, oscilação de pressão, sintomas digestivos, dores sem causa identificada nos exames.

A capacidade de decidir se estreita. Decisões dentro do próprio processo passam a ser tomadas de dois modos ruins: por impulso, para acabar logo com aquilo, ou por paralisia, adiando o que precisaria ser respondido. Ambos custam caro — e não são falha de caráter, são o efeito previsível de decidir sob privação de sono e alerta contínuo.

A armadilha específica de quem entende do assunto

Este ponto é para quem trabalha com direito, e ele merece ser dito sem rodeios.

Ser advogado, magistrado, procurador ou servidor da área jurídica e ser parte no próprio processo é uma posição de dificuldade particular. Porque você entende cada movimento. Você lê a peça com olhos técnicos. Você antecipa estratégias. Você sabe o que aquele despacho significa, o que costuma acontecer depois, quanto tempo aquilo pode se arrastar.

Isso parece uma vantagem. Em parte é. Mas tem um custo específico: o conhecimento técnico impede o descanso. Quem não entende de processo consegue, em alguma medida, delegar e parar de pensar. Você não consegue — porque a sua cabeça continua trabalhando o caso automaticamente, sem que você tenha pedido.

Há ainda um segundo custo, mais difícil. A distância profissional que você usa há vinte anos para olhar o conflito dos outros não funciona quando o conflito é o seu. E como ela sempre funcionou, a sua ausência é sentida como falha pessoal. Não é. É a condição de ser parte.

Quando a disputa envolve os filhos

Não vou entrar em nada que diga respeito à condução jurídica do seu caso — não é o meu lugar. Mas há um aspecto clínico que aparece em quase toda consulta desse tipo e que merece ser nomeado.

Litígios envolvendo guarda ou convivência colocam a pessoa numa posição em que a própria capacidade de ser pai ou mãe passa a ser objeto de avaliação externa. Isso é vivido, quase sempre, como uma ameaça à identidade — muito mais do que qualquer questão patrimonial. E gera uma vigilância exaustiva: cada mensagem escrita com cuidado excessivo, cada fim de semana com a sensação de estar sendo observado, cada conversa com o filho revisada mentalmente depois.

Somado ao resto, isso costuma ser o fator que mais desgasta. Não porque a pessoa seja frágil, mas porque não há como sustentar essa vigilância por meses sem custo.

Onde deixa de ser reação esperada

Nada do que descrevi até aqui é doença. É o que acontece com pessoas saudáveis expostas a esse tipo de tensão por muito tempo, e a maior parte se reorganiza quando a pressão cede.

O que muda a conversa é isto: alguns quadros deixam de acompanhar o processo e passam a andar por conta própria. Os sinais de que isso pode ter acontecido não são a intensidade do sofrimento — são a autonomia dele em relação aos fatos.

Vale prestar atenção se, ao longo de semanas:

– O estado se tornou contínuo, igual todos os dias, mesmo nos períodos em que não há nada acontecendo no processo. Uma boa notícia processual não produz alívio nenhum. – O sono não se reorganiza nem nos intervalos longos entre atos. – A concentração não retorna em nenhum momento, incluindo em tarefas que nada têm a ver com o litígio. – Algo que sempre deu prazer — esporte, música, os amigos de sempre — parou completamente de dar, e não voltou. – O rendimento profissional caiu de forma sustentada, com atrasos e falhas que não são o seu padrão. – Você percebe que decisões importantes, dentro e fora do processo, estão sendo tomadas num estado em que você não confia.

Esse último item, na prática, é o que mais importa. Um litígio exige de você exatamente aquilo que ele mais compromete: julgamento, clareza e capacidade de sustentar uma posição ao longo do tempo. Chegar ao fim de um processo com decisões tomadas sob dois anos de privação de sono é um custo que dura muito mais do que o processo.

Não é sobre transformar a sua dor em diagnóstico

Vale ser explícito, porque essa é a resistência que aparece com mais frequência.

Procurar uma avaliação não significa aceitar que você tem uma doença mental, nem que a sua reação é desproporcional, nem que o seu sofrimento precisa ser reclassificado. Ninguém vai lhe dizer que estar mal durante um divórcio litigioso é sintoma.

O que uma avaliação faz é separar duas coisas que se confundem: o sofrimento pela situação, que é esperado e não se trata, e as consequências funcionais acumuladas — sono, atenção, humor, capacidade de decidir —, que podem ter passado a operar sozinhas e que, quando passam, não se resolvem esperando o trânsito em julgado.

Isso é uma pergunta clínica. Ela se responde com alguém que tenha tempo de reconstruir a história inteira, não em vinte minutos e não sozinho, às três e dez da manhã.

Você não precisa concluir nada hoje.

O processo de divórcio começou a cobrar do seu corpo?

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Dr. Leonardo Sodré é médico psiquiatra e psicoterapeuta em Brasília (CRM-DF 14.206 · RQE 14.761). Doutor em Psiquiatria pela UFRGS e professor na Faculdade de Medicina da UnB. Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento individual.