Sobre o dia seguinte ao segundo turno: o luto de quem perdeu, o triunfo que também desorganiza quem ganhou, e o que Freud, em Luto e melancolia, ajuda a entender sobre os dois.

Segunda-feira, oito e meia da manhã. O elevador do prédio comercial para no térreo e entram duas pessoas que trabalham no mesmo andar há anos. As duas dormiram mal. As duas evitam se olhar.
Uma delas passou a noite de domingo com o celular virado para baixo em cima da mesa. Desligou a televisão antes do fim da apuração, ouviu os fogos de algum vizinho e foi deitar com uma sensação que não sabia nomear. Acordou antes do despertador, com um peso no peito e uma frase voltando sozinha: eu achava que conhecia o meu país.
A outra quase não dormiu por outro motivo. Recebeu dezenas de mensagens, mandou outras tantas, riu alto na sala. Agora leva no celular um vídeo debochado que pretende mandar para o cunhado, e no rosto um sorriso que tenta segurar, porque sabe em quem a colega votou. Sente alívio, euforia e, por baixo, alguma coisa menos confortável que ainda não olhou de frente.
O resultado do segundo turno entre Flávio Bolsonaro e Lula saiu no domingo à noite. Nesta manhã, o país inteiro se parece um pouco com aquele elevador: gente que não quer conversar, gente que não sabe se pode comemorar, e pouca gente sabendo o que fazer com o que sente.
Não foi só um candidato que perdeu
Quem perde uma eleição costuma ouvir, já na segunda-feira, alguma versão de “é só política”, “daqui a quatro anos tem outra”, “a vida segue”. Quase sempre é dito com boa intenção. Quase nunca ajuda, porque não corresponde ao que se sente. O que se sente é que se perdeu alguma coisa própria.
Freud tem uma explicação para isso num texto curto de 1917, Luto e melancolia. Logo no começo, ele define o luto como a reação à perda de uma pessoa amada ou de algo que ocupa o lugar dela, e dá três exemplos: a pátria, a liberdade, um ideal. Há mais de cem anos, portanto, a perda de um ideal já aparecia na mesma família da perda de alguém querido.
Numa eleição, o que se perde raramente é o candidato em si. Perde-se uma imagem de país, uma esperança que organizava os planos, a sensação de pertencer à maioria, a confiança de que as pessoas ao redor pensavam parecido. Às vezes se perde algo mais íntimo: a ideia de que se sabia ler o mundo. Daí vem a humilhação, essa vergonha estranha de quem não fez nada de errado e ainda assim se sente exposto. E daí vem a vontade de ir embora do país, que aparece com força nesses dias. Às vezes é um projeto real, amadurecido há tempo. Às vezes é o jeito que a dor encontra de dizer que não quer mais pertencer àquilo que acabou de machucá-la.
E há a raiva. Raiva de quem votou diferente, raiva de quem não votou, raiva de si mesmo por ter acreditado. Ela também faz parte da perda, e não é sinal de mau caráter.
O luto empobrece o mundo por um tempo
Freud descreve o trabalho do luto como algo lento e custoso. A realidade mostra que aquilo que se amava não está mais ali, e a mente precisa se desligar aos poucos, lembrança por lembrança, expectativa por expectativa. Enquanto isso acontece, o mundo perde a cor. Some o interesse pelas notícias, pelas conversas, às vezes por coisas que não têm nada a ver com política. Dá vontade de não ver ninguém.
Há uma observação nesse texto que costuma surpreender quem o lê pela primeira vez. Freud diz que nunca nos ocorre tratar o luto como doença e encaminhá-lo ao médico, embora ele altere tanto a maneira de estar na vida. Confiamos que vai passar, e consideramos inútil, ou até prejudicial, perturbá-lo.
Vale levar isso a sério nesta semana. Tristeza, irritação, cansaço, falta de ânimo para o almoço de família: nos dias seguintes a uma derrota, tudo isso costuma ser trabalho psíquico em andamento, e não sintoma. Apressá-lo, de fora ou de dentro, em geral só o empurra para mais adiante.
Quando a perda vira acusação contra si
A força do ensaio está na distinção que vem em seguida. Ao lado do luto, Freud descreve outra resposta à perda, que chamou de melancolia. Por fora, as duas se parecem: tristeza, desinteresse, retraimento. Por dentro, há uma diferença decisiva. No luto, escreveu ele, é o mundo que fica pobre e vazio. Na melancolia, é o próprio eu.
Na melancolia, a perda vira acusação. A pessoa não diz “perdemos”. Diz “eu fui ingênuo”, “eu não sirvo para nada”, “eu não tenho lugar aqui”. Freud notou algo sutil nessas autoacusações: muitas vezes são queixas dirigidas a alguém, ou a algo que se amava e que decepcionou, e que fizeram meia-volta contra o próprio sujeito. A raiva que não encontra destino volta para casa.
Ele observou também que, na melancolia, a pessoa sabe quem perdeu, mas não sabe bem o que perdeu ali. É uma ideia útil para quem atravessa uma derrota eleitoral com uma intensidade que não consegue explicar. Às vezes a eleição toca numa perda mais antiga, que não tem nada a ver com política: um pai que nunca foi o que se esperava, um projeto de vida que não aconteceu, um lugar de origem que ficou para trás. A derrota de agora reabre a porta, e a dor que entra é maior do que a eleição.
Nada disso quer dizer que quem perdeu uma eleição esteja doente. A distinção serve como lente, não como rótulo. A maior parte das pessoas atravessa o luto e volta. Para algumas, a perda se engancha em algo anterior e começa a virar acusação contra si. É aí que vale prestar atenção.
O triunfo também desorganiza
O dia seguinte também cobra de quem ganhou, e disso se fala bem menos.
No mesmo ensaio, ao pensar no polo oposto ao da perda, Freud recorre a situações comuns da vida: alguém que se vê livre, de repente, de uma preocupação antiga, ou uma luta longa e penosa que enfim termina em êxito. A energia que estava presa na tensão se solta de uma vez. A pessoa fica expansiva, falante, cheia de disposição, com a sensação de que tudo é possível. Depois de semanas de medo, nada mais humano.
Só que o triunfo também desorganiza. Dorme-se menos, fala-se mais, decide-se mais depressa. E aparece, em muita gente que se considera generosa, uma vontade que surpreende: a de humilhar. O vídeo debochado para o cunhado. A mensagem no grupo da família escrita para ser lida por uma pessoa só. O comentário no elevador.
Essa vontade quase sempre carrega o medo das semanas anteriores. Quem teve muito medo de perder quer, às vezes, que o outro sinta exatamente o que ele temeu sentir. É uma forma de se livrar do próprio susto entregando-o a alguém. Funciona por algumas horas. Depois, costuma deixar uma relação mais estragada e um gosto estranho na boca.
E há o que vem depois da euforia. Passados alguns dias, há quem perceba um vazio inesperado, uma espécie de “e agora?”, ou uma irritação nova com quem não está comemorando junto. O triunfo também pode ser uma forma de não olhar para o que custou chegar até ali.
Os dois na mesma mesa
No domingo seguinte, as duas pessoas do elevador, ou as versões delas em cada família, vão sentar à mesma mesa. E cada uma tende a ler o estado da outra como provocação. O silêncio de quem perdeu parece ressentimento. A leveza de quem ganhou parece deboche.
O que fica difícil de ver, de um lado, é que o outro perdeu algo real, e que o luto dele não é birra. O que fica difícil de ver, do outro, é que aquele alívio vem depois de semanas de medo, e que nem toda alegria é contra alguém. Quase todo mundo que vota há algum tempo já esteve dos dois lados de um resultado. A lembrança disso costuma falhar justamente quando faria mais falta.
Quando o dia seguinte não termina
Para a maior parte das pessoas, as próximas semanas vão bastar. O luto faz o seu trabalho, a euforia assenta, e a vida volta a ocupar o espaço que a eleição tinha tomado.
Vale procurar avaliação quando isso não acontece. Quando o sofrimento passa a tomar conta do dia e não cede com o tempo. Quando o sono some por várias noites, seja pela tristeza, seja pela agitação. Quando a autoacusação fala mais alto do que a tristeza. Quando a euforia empurra para decisões que não seriam tomadas em outro momento. Quando surgem ideias que assustam. E, para quem já trata um transtorno do humor, estas semanas merecem atenção redobrada junto ao médico que acompanha.
Uma psicoterapia de orientação analítica oferece aqui algo que nenhuma conversa de família oferece: um lugar para descobrir o que, exatamente, se perdeu ou se ganhou nesta eleição. O voto não está em julgamento, e ninguém ali vai discuti-lo. O que interessa é entender por que esta derrota, ou esta vitória, pesou tanto. Muitas vezes a resposta está numa história bem anterior a qualquer candidato, e só aparece quando há tempo e espaço para que ela seja contada.
Na terça-feira, as duas pessoas vão pegar o mesmo elevador de novo. Daqui a quatro anos, talvez tenham trocado de lugar.
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Dr. Leonardo Sodré é médico psiquiatra e psicoterapeuta em Brasília (CRM-DF 14.206 · RQE 14.761). Doutor em Psiquiatria pela UFRGS e professor na Faculdade de Medicina da UnB. Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento individual.