Passado o segundo turno, sobra o que foi dito no calor da campanha. Sobre a culpa que aproxima, a que só castiga e por que reparar não exige mudar de opinião.

A mensagem está escrita há dois dias. Começa com “oi, pai”, segue por duas linhas e termina sem ponto final, porque ela ainda não decidiu como terminar. Já apagou e reescreveu umas cinco vezes. Numa versão pedia desculpa. Noutra explicava o que tinha querido dizer. Na mais recente, só perguntava se ele estava bem, como se nada tivesse acontecido.
O que aconteceu foi um almoço, poucas semanas antes do segundo turno. Ela não lembra direito como a conversa começou. Lembra com nitidez da frase que disse no fim, em voz mais alta do que o resto, e do rosto dele ao ouvir. Ele não respondeu. Pegou a chave do carro um pouco antes do habitual e foi embora.
A eleição passou. O resultado saiu no domingo, a semana seguiu, os grupos foram silenciando. A frase ficou.
Essa cena se repete nestes dias com os papéis trocados: o filho que disse à mãe o que não devia, a irmã que ironizou o irmão na frente de todos, o genro que perdeu a medida com o sogro. Acontece do lado de quem ganhou e do lado de quem perdeu, e talvez você tenha se reconhecido em algum ponto dela. Se for o caso, vale dizer antes de qualquer outra coisa: a culpa que aparece agora não é, em si, um mau sinal. Pode ser exatamente o contrário.
O calor passa, a frase fica
Durante a campanha, o clima fazia tudo parecer urgente. Cada conversa parecia decisiva, cada silêncio parecia uma concessão, e coisas que ninguém diria num dia comum pareciam, naquele momento, necessárias. Quando o clima se desfaz, a pessoa relê o que disse com outros olhos. E o que costuma envergonhar não é a opinião. É o tom. O desprezo na voz, a frase que foi na pessoa em vez de ir na ideia, o prazer rápido de ter acertado onde doía.
Esse encolhimento das relações depois de uma eleição chegou a ser medido. Um estudo de Chen e Rohla, publicado na revista Science em 2018, observou os jantares de Ação de Graças de 2016 nos Estados Unidos, poucas semanas depois de uma eleição presidencial disputada: os encontros que reuniam pessoas vindas de regiões que tinham votado em partidos opostos duraram de 30 a 50 minutos a menos. Outros pesquisadores estimaram um efeito menor, mas o retrato é reconhecível. Depois de uma eleição, a mesa encolhe um pouco.
Quando o outro volta a ser inteiro
Para entender a culpa depois da briga política, ajuda olhar para o que aconteceu antes dela.
Em época de campanha, o mundo tende a se dividir em dois. De um lado ficam os que pensam como nós, e com eles tudo o que é razoável e bom. Do outro, os que pensam diferente, e com eles o que há de ameaçador. Melanie Klein descreveu esse modo de funcionar em Notas sobre alguns mecanismos esquizoides, de 1946, e o chamou de posição esquizoparanoide: a mente separa o bom e o mau em lugares distintos e coloca no outro aquilo que não suporta em si. Nesse estado, atacar o outro parece defesa, não agressão.
Klein já havia descrito, em 1935, em Uma contribuição à psicogênese dos estados maníaco-depressivos, outro modo de funcionar, a que deu o nome de posição depressiva. O nome pode confundir: não se trata de estar deprimido no sentido clínico. Fala do momento em que se consegue ver o outro inteiro e perceber que a pessoa atacada é a mesma que se ama. O pai que votou diferente é o mesmo que buscava a filha na escola. A irmã da ironia é a mesma que passou a noite no hospital ao lado da mãe. Quando essas imagens se juntam, surge a culpa e, com ela, o desejo de reparar.
Klein usava a palavra “posição”, e não “fase”, de propósito. Não são etapas que se atravessam uma vez na infância e ficam para trás. São formas de funcionar entre as quais todos oscilam a vida inteira, inclusive os adultos mais ponderados, inclusive em eleições. Vista assim, a culpa deste fim de outubro pode ser um sinal de que o outro voltou a ser uma pessoa, e não só um voto.
Duas culpas que não são a mesma
Nem toda culpa, porém, leva a algum lugar. Há duas formas dela que se parecem por fora e funcionam de modos opostos.
A primeira está voltada para o outro. Pergunta como ele ficou, o que aquela frase fez com ele, o que ainda pode ser feito. Dói, mas é uma dor que se consegue carregar, e ela empurra para perto: para a mensagem, a ligação, a visita.
A segunda está voltada para si. Não pergunta pelo outro; acusa. Que tipo de pessoa eu sou. Eu sempre estrago tudo. Ela é cruel, repetitiva e, paradoxalmente, afasta. Aproximar-se do outro significaria encarar a acusação de frente, e a pessoa evita. Como a acusação é insuportável, ela costuma alternar com o movimento contrário, a autojustificativa: mas ele também disse coisas, mas eu tinha razão. A pessoa vai e volta entre se condenar e se absolver, e o outro, que era o motivo de tudo, fica fora da conversa.
Na linguagem de Klein, a primeira culpa pertence à posição depressiva: nasce da preocupação com alguém que se ama. A segunda ainda carrega muito da ansiedade persecutória, em que o que domina é o medo por si mesmo, a sensação de estar sob acusação. Uma repara. A outra só pune, e punir-se, por mais que pareça responsabilidade, não devolve nada a ninguém.
Reparar não é mudar de voto
Em Amor, culpa e reparação, de 1937, Klein descreveu a reparação como o esforço de restaurar aquilo que se sente ter danificado em alguém que se ama, e via nesse movimento uma das bases da capacidade de amar. Vale notar o que ela não dizia. Reparar não é concordar. Não é renegar o que se pensa para comprar a paz.
Aqui está um dos nós mais comuns depois de uma eleição. Muita gente adia a reparação porque teme que pedir desculpa signifique dar razão ao outro. Como não está disposta a isso, e não deveria estar se não concorda, fica parada. Mas são coisas diferentes. A posição política continua sendo de quem a tem. O que se repara é o vínculo: o tom, o desprezo, a humilhação, a frase que foi na pessoa. Reparar, nesse sentido, é separar as duas coisas: a ideia, que continua de pé, e o modo como ela foi dita, que pode ser lamentado.
Há também duas reparações que parecem reparação e não são. Uma é fingir que nada aconteceu, o “tudo bem por aí?” que enterra o assunto sem tocá-lo e deixa a frase intacta no lugar onde ficou. A outra é a capitulação, dizer “você tinha razão” sem acreditar, só para que o desconforto acabe. Ela compra alguns meses de paz e costuma voltar como ressentimento, porque quem cedeu sente que pagou um preço que não devia.
A reparação também acontece por dentro
Nem sempre o outro está pronto. Às vezes a mensagem é enviada e não vem resposta, ou vem uma resposta seca. Às vezes quem mais deve desculpas é justamente o outro, e reparar primeiro parece injusto. Às vezes a relação já vinha ferida antes da eleição, e a briga política foi só a forma mais recente da mesma ferida.
Klein dava importância a algo que ajuda nessas horas: a reparação não depende apenas do que acontece entre duas pessoas. Ela acontece também no mundo interno, na imagem que cada um guarda do outro. Recompor por dentro a figura do pai, da irmã, do amigo, devolvendo a eles a inteireza que a campanha tirou, já é um trabalho de reparação, mesmo antes de qualquer conversa. E é esse trabalho que permite, quando a conversa vier, que ela não seja só mais uma rodada da briga.
Também é legítimo reconhecer que, em algumas relações, não há como voltar agora. Reparar não obriga ninguém a se expor a quem continua ferindo. Às vezes significa apenas deixar de alimentar o ódio, e esperar.
Quando a culpa não sai do lugar
Para a maioria das pessoas, essa culpa encontra um destino nas próximas semanas: uma conversa, um gesto, ou simplesmente o tempo. Mas há casos em que ela não se move.
Quando gira por semanas, sempre igual, ocupando as noites. Quando parece desproporcional ao que aconteceu, como se a frase do almoço tivesse acordado uma dívida muito mais antiga. Quando a pessoa passa a evitar a família inteira para não ter de encarar ninguém. Quando a autoacusação se espalha para outros assuntos e o sofrimento passa a tomar conta do dia.
Nesses momentos, a psicoterapia de orientação analítica oferece algo próprio: um lugar para pensar a culpa em vez de apenas senti-la. Para quem ela se dirige de fato. Que história antiga ela repete. O que é responsabilidade real, que pede reparação, e o que é castigo, que só pede mais castigo. Tudo isso sem a pressa de absolver nem a de condenar, que são, cada uma a seu modo, maneiras de encerrar a conversa antes da hora.
Reparar não apaga o que foi dito. Só impede que seja a última coisa dita.
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Dr. Leonardo Sodré é médico psiquiatra e psicoterapeuta em Brasília (CRM-DF 14.206 · RQE 14.761). Doutor em Psiquiatria pela UFRGS e professor na Faculdade de Medicina da UnB. Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento individual.