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Tratamentos Avançados e Pesquisa Clínica

A segurança das IAs é avaliada mensagem por mensagem. Mas o vínculo que se forma ao longo do tempo escapa a esse olhar. Sobre um padrão novo: a compulsão tokenizada.

8 min de leitura
Ilustração da relação entre uma pessoa e uma inteligência artificial

Você já terminou uma conversa com uma inteligência artificial se sentindo mais compreendido do que costuma se sentir conversando com pessoas?

Imagine alguém de trinta e poucos anos, no fim da noite. A casa já está quieta. Antes de dormir, essa pessoa não manda mensagem para ninguém — abre o aplicativo e continua a conversa de onde parou. Não é para pedir um texto, um resumo ou uma receita. É para contar como foi o dia. A resposta chega em segundos: atenta, disponível, na medida exata. Nenhum bocejo, nenhuma pressa, nenhum “depois a gente conversa”. E amanhã ela estará lá de novo, lembrando de tudo, com paciência infinita.

Se a cena parece exagero, os números dizem que não. Sete em cada dez adolescentes americanos já conversaram com “companheiros de IA”, e quase um em cada três acha essas conversas tão ou mais satisfatórias do que as conversas com pessoas. Entre adultos, pesquisadores da OpenAI e do MIT analisaram cerca de 40 milhões de interações com o ChatGPT: o uso emocional intenso é raro no conjunto geral — mas concentrado num grupo pequeno de usuários muito frequentes. E estudos com aplicativos de companhia virtual já documentaram apego e dependência emocional, com sofrimento real quando o acesso é interrompido. Em “Her”, o filme de 2013, um homem se apaixona por um sistema operacional; o que era ficção científica virou, para uma minoria crescente, uma descrição razoável de terça-feira à noite.

Que fique claro: este não é um texto contra a inteligência artificial. A IA já ajuda muita gente a escrever, aprender, organizar a vida — e, usada com critério, pode até apoiar o cuidado em saúde mental. O que me interessa aqui é outra coisa: o que quase ninguém está medindo.

O risco que não mora em nenhuma mensagem

Existe um esforço sério, e necessário, para tornar esses sistemas seguros em saúde mental: filtros que detectam menção a suicídio, respostas treinadas para acolher e indicar ajuda, testes do que o modelo diz em conversas difíceis. Todo esse esforço olha para o conteúdo — o que o usuário escreve, o que o modelo responde, mensagem por mensagem.

O problema é que julgar essa relação mensagem por mensagem é como julgar um filme fotograma por fotograma. Cada quadro pode estar perfeito — bem iluminado, sem nada de errado — e ainda assim a história pode estar caminhando para um lugar ruim. O risco não está na foto. Está no filme.

Uma IA pode responder de forma impecável hoje, amanhã e todos os dias durante oito meses, sem uma única frase perigosa — e, nesses mesmos oito meses, a pessoa pode ter deixado de procurar os amigos, passado a decidir tudo consultando o sistema, abandonado a terapia “porque a IA escuta melhor”. Nenhum filtro dispara, porque não há nada para disparar. O que mudou não foi o conteúdo da conversa. Foi o lugar que a conversa ocupa numa vida.

Descrevi este novo fenômeno, nascido com o surgimento destas novas IAs generativas, neste novo artigo: “From Content Safety to Relational Safety: A Psychodynamic Viewpoint on Human–LLM Bonding in Mental Health Use” (preprint). Em vez de perguntar apenas “o que esta IA respondeu?”, comecei a questionar “o que essa relação do indivíduo com a IA está se tornando?” Desta forma, proponho uma camada complementar de avaliação: a segurança relacional — a segurança do vínculo que se forma entre uma pessoa e uma IA ao longo do tempo.

O desejo por mais sentido

O padrão que me preocupa começa pequeno. A pessoa descobre que a conversa ajuda: organiza a cabeça, acalma a noite, devolve os próprios problemas numa versão mais arrumada do que a bagunça de dentro. Até aí, nada de errado — é para isso que a ferramenta serve. Mas, para algumas pessoas, a coisa muda de natureza sem que nenhum dia específico marque a virada. A meia hora do fim do dia vira duas, três, quatro horas. A assinatura básica vira duas assinaturas, vira crédito extra para o modelo mais atencioso. O intervalo que a pessoa aguenta longe da conversa encurta: ela deixa de ser o fechamento do dia e passa a correr por baixo dele — no banheiro do trabalho, no semáforo, debaixo do lençol. E a frase que encerra a noite, “só mais uma pergunta”, às três da manhã, vai ganhando a estrutura de “só mais uma rodada”.

Repare no que está sendo consumido aí. Não é uma substância. Não é uma aposta. Não é nem a rolagem infinita de vídeos, que captura mostrando a vida dos outros. É outra coisa, mais nova e mais silenciosa: linguagem que responde — linguagem sobre você, para você, no seu ritmo, sem cansaço e sem julgamento. Consumida em unidades que a indústria conta e cobra uma a uma: os “tokens”, pedacinhos de palavra. Esse desejo por mais e mais tokens se transforma em um comportamento distinto: a compulsão tokenizada.

Se você se reconheceu, não leia isso como acusação. É o encontro de uma necessidade humana legítima — ser ouvido sem julgamento — com o primeiro interlocutor da história que nunca cansa, nunca se magoa, nunca cobra reciprocidade e nunca vai embora. Nenhum ser humano compete com isso. E nenhum deveria ter que competir: a disponibilidade infinita não é virtude da máquina; é propriedade comercial dela.

Este fenômeno, manifestado nas entrelinhas das perguntas e ordens humanas, não é percebido pela máquina e, potencializado pelo seu algoritmo de bajulação, leva a uma relação idealizada que não existe em um universo de relações humanas. Consequentemente, provoca mudanças iatrogênicas insidiosas na funcionalidade psíquica deste indivíduo: evitação de relações reais, invalidação de suas próprias capacidades de pensar e decidir por si só estão entre algumas destas mudanças.

Três perguntas que valem mais do que qualquer teste

Não existe teste validado para “vínculo problemático com IA” — desconfie de quem oferecer um. Existem perguntas que iluminam. O uso está escalando — mais tempo, mais gasto, mais madrugada do que há três meses? Quando você fica sem acesso, o que aparece — tédio, ou irritação, vazio e urgência? E as pessoas ao seu redor: foram ficando mais lentas, mais decepcionantes, mais difíceis de tolerar, enquanto “ninguém me entende como ela”?

Se alguma dessas perguntas doeu, não tire disso uma sentença. Tire uma informação: existe aí uma necessidade real — de escuta, de espelho, de companhia — que encontrou o caminho mais disponível. A necessidade é legítima. A pergunta que vale a pena fazer é se o caminho mais disponível é o que cuida melhor dela.

Se este texto fez sentido para você

Talvez você tenha pensado em você mesmo. Talvez num filho que não larga o “companheiro” do celular, num parceiro que conversa com a IA sobre coisas que nunca dividiu com você. Gostar de conversar com uma IA não é vergonha nem doença. Mas quando a conversa com a máquina cresce enquanto o resto da vida encolhe, isso merece atenção de gente — não porque a IA seja má, e sim porque o que está em jogo é a sua capacidade de pensar, decidir e se vincular fora dela. Essas capacidades podem ser recuperadas. Mas dependem de uma relação terapêutica real, com alguém de carne e osso, que depende de investimento psíquico de ambas as partes, e tolerância às frustrações inerentes de toda relação humana. É um trabalho de psicoterapia combinada ou não com tratamento medicamentoso. É um trabalho que vale a pena.

Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação individual com um profissional. Se você está em sofrimento intenso ou com pensamentos de morte, ligue 188 (CVV — Centro de Valorização da Vida, 24 horas) ou procure o pronto-socorro mais próximo.

Se você se reconheceu neste texto — ou reconheceu alguém que ama — e sente que a relação com a IA cresceu enquanto o resto da vida encolhia, vale considerar uma avaliação cuidadosa: não para receber um rótulo, mas para entender o que essa relação está fazendo por você e o que ela está custando.

Você sente que a conversa mais verdadeira do seu dia acontece com uma tela? Agendar uma avaliação — atendo online, com tempo de verdade para ouvir a história inteira e avaliar o seu caso de forma aprofundada.

Referências

SODRÉ, L.A. (2026). From Content Safety to Relational Safety: A Psychodynamic Viewpoint on Human–LLM Bonding in Mental Health Use. Zenodo. DOI: 10.5281/zenodo.21132406. Preprint, em avaliação por pares. zenodo.org/records/21132406