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Condições e Diagnósticos
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Ilustração para o artigo: Cinco psiquiatras, dez anos, nenhuma resposta

A pasta está em cima da cômoda do quarto.

Dentro dela: receitas antigas, algumas já quase apagadas; relatórios de duas internações; exames de sangue de anos diferentes; um encaminhamento escrito à mão que ninguém nunca usou. A pasta engordou devagar, ao longo de uma década, e ninguém em casa consegue mais dizer com precisão o que tem lá dentro.

Ela desce da cômoda umas duas vezes por ano, quando alguém decide tentar de novo.

E aí vem a sala de espera. E vem, sobretudo, a parte que mais cansa: recomeçar. Contar de novo quando começou. Explicar de novo o que aconteceu em 2019. Dizer de novo os nomes dos remédios que já foram usados, na ordem, sem lembrar direito por que cada um foi interrompido. Contar de novo a briga, a internação, o período em que quase deu tudo errado. Compactar dez anos em vinte minutos, para alguém que está ouvindo aquilo pela primeira vez.

No fim, sai-se com uma receita nova e a mesma sensação de sempre. Não a de que algo foi entendido — a de que algo foi ajustado.

Quando essa família finalmente escreve ou liga, a pergunta costuma vir sem cerimônia, e ela é justa: nós já fomos em cinco psiquiatras nos últimos dez anos e nenhum resolveu. Por que com ele seria diferente?

Não tenho uma resposta bonita para essa pergunta. Tenho uma resposta honesta, que é o que dá para oferecer por escrito, e ela começa por concordar com vocês em um ponto.

Talvez você esteja lendo isso com a pasta em mente — a sua, da sua casa. Ou talvez esteja pensando em outra família, alguém que já disse essa mesma frase para você em algum almoço e a quem você não soube o que dizer. Se for o caso, de um jeito ou de outro, vale começar assim: o ceticismo de vocês não é resistência ao tratamento. É uma conclusão razoável, tirada de dez anos de evidência.

O ceticismo é a conclusão correta a partir do que vocês viveram

Isso precisa ser dito com todas as letras, porque quase sempre esse ceticismo é tratado como problema — como se a família fosse difícil, exigente, ou estivesse “buscando culpado”.

Não está. Vocês tentaram cinco vezes. Cinco vezes a coisa foi apresentada como possivelmente resolutiva. Cinco vezes não foi. Qualquer pessoa que raciocine minimamente bem sai daí desconfiada. Seria estranho se não saísse.

Então não vou pedir que vocês tenham esperança. Esperança, nessa altura, é um pedido caro demais para se fazer a alguém — e não é pré-requisito para nada.

Por que trocar de médico, sozinho, costuma não mudar nada

A resposta desconfortável é que o problema geralmente não está na pessoa do médico. Está no formato em que a maior parte das consultas acontece.

Uma consulta psiquiátrica comum dura pouco. É tempo suficiente para saber como a pessoa está desde a última vez, verificar como está tolerando o que usa, e ajustar. Não é tempo para reconstruir dez anos de história. E como não é, o que acontece na prática é que cada médico novo herda o diagnóstico anterior como ponto de partida.

Isso tem um efeito acumulativo que quase ninguém enxerga de dentro: o diagnóstico vai ficando mais firme não porque foi confirmado, mas porque foi repetido. Cinco médicos escreveram a mesma coisa no prontuário. O quinto escreveu porque o quarto tinha escrito. Em nenhum momento a hipótese inicial foi colocada de volta na mesa e examinada desde o começo.

Há outra coisa, e ela é decisiva neste tipo de quadro: quem convive quase nunca é ouvido. As consultas acontecem entre o médico e o paciente. Mas nos transtornos de humor há períodos inteiros sobre os quais a própria pessoa tem uma memória incompleta — não por má-fé, mas porque durante uma fase acelerada a percepção do próprio estado fica prejudicada. Quem estava do lado de fora guarda a outra metade da história. Se essa metade nunca entra na sala, o quadro é montado com metade das peças.

E há o registro do que já foi tentado. Numa história longa, a lista do que foi usado, em que ordem, por quanto tempo e por que foi interrompido é uma das informações mais valiosas que existem. Ela quase nunca está organizada em lugar nenhum. Está espalhada em receitas soltas dentro de uma pasta em cima da cômoda.

Quando esses três problemas continuam de pé, trocar de médico é mesmo só trocar de médico. A sexta tentativa vira uma repetição da quinta com outro nome no carimbo.

O que uma reavaliação completa faz de diferente

Não é uma técnica especial. É, principalmente, uma diferença de escopo e de tempo — e vale ser concreto sobre o que isso significa, para que não soe como promessa vaga.

Uma reavaliação parte do zero. Não pergunta “como você está desde a última consulta”. Pergunta como começou, o que veio antes, o que houve em cada período, o que mudou primeiro em cada vez. Reconstrói a linha do tempo inteira, com datas quando é possível ter datas.

Ela investiga os períodos bons com a mesma seriedade com que investiga os ruins. Isso é decisivo, porque é ali que a informação costuma estar escondida — nas fases em que ninguém procurou ajuda porque ninguém achou que houvesse problema.

Ela escuta quem convive. Não como acompanhante, mas como fonte de informação clínica, com espaço próprio para falar o que viu.

Ela organiza o histórico de tratamento, para poder ler o padrão em vez de ler tentativas isoladas. O que aconteceu depois de cada início. O que aconteceu depois de cada interrupção. Se há uma direção que se repete.

E ela mantém aberta a possibilidade de que a hipótese inicial esteja incompleta ou errada. Não porque seja provável — muitas vezes não é —, mas porque em histórias longas e que não respondem como se esperava, essa pergunta precisa ser feita de novo, e feita por alguém disposto a chegar a uma conclusão diferente da que está no papel.

Isso é o que dá para descrever com honestidade. Não é mágica, não é exame que ninguém pediu, não é técnica que os outros não conhecem. É tempo, método e disposição de recomeçar a pergunta.

O que eu não posso prometer

Aqui é onde este texto precisa ser mais direto do que seria confortável.

Não posso prometer que será diferente. Não sei se será, e quem disser que sabe, sem ter examinado a pessoa, está oferecendo algo que não tem.

É perfeitamente possível que uma reavaliação completa conclua que o diagnóstico existente está correto e que o tratamento em curso é adequado. Isso acontece, e não é fracasso — é uma resposta, e às vezes é uma resposta que a família nunca teve com segurança.

Também é possível que o processo demore. Histórias de dez ou quinze anos não se reorganizam numa tarde, e mudanças em quadros de humor não são avaliadas em dias.

E há um limite que nenhum médico atravessa: a estabilidade num quadro crônico não é um estado que se instala de uma vez e permanece. É algo que se acompanha ao longo do tempo, com revisões. Quem promete o contrário está vendendo alívio, não tratamento.

O que dá para dizer é isto: numa história longa que não respondeu como se esperava, refazer a leitura completa é uma das poucas coisas que ainda não foram tentadas — porque as cinco tentativas anteriores, na maior parte das vezes, foram tentativas de ajuste, não de releitura.

O que muda mesmo quando o diagnóstico não muda

Vale falar disso, porque é o que costumo ver com mais frequência.

Mesmo quando a conclusão confirma o que já se sabia, uma coisa muda: a família passa a ter a história organizada. Sabe o que foi tentado e por quê. Sabe o que significou cada interrupção. Sabe o que costuma acontecer antes de cada mudança de fase, na história daquela pessoa específica.

Isso desfaz uma parte grande do desamparo. Não porque resolva o quadro, mas porque tira a família do lugar de estar reagindo a acontecimentos incompreensíveis e a coloca no lugar de quem entende o que está vendo. É menos do que vocês gostariam. Mas não é pouco, depois de dez anos sem isso.

A decisão é de vocês, inteira

Não estou pedindo que vocês acreditem em nada. Não seria razoável, e vocês têm todo o direito de terminar este texto pensando que é mais do mesmo.

Se decidirem tentar de novo em algum momento — comigo ou com outra pessoa —, talvez valha só uma pergunta a ser feita antes: se essa consulta vai recomeçar a história do início, com tempo para isso, e se quem convive vai ter espaço para falar. Se a resposta for não, é provável que seja mesmo mais uma troca de médico.

E se decidirem não tentar agora, isso também é uma posição legítima. Famílias que atravessaram dez anos assim precisam, às vezes, de um intervalo antes de reunir energia para outra tentativa. Não há prazo aqui, e não há cobrança.

Você não precisa concluir nada hoje.

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Dr. Leonardo Sodré é médico psiquiatra em Brasília (CRM-DF 14.206 · RQE 14.761), com formação e interesse em psicanálise. Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento individual.