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Psicoterapia

Leitura psicanalítica de Adolescência (Netflix): Bion, André Green e Winnicott aplicados à violência juvenil e à manosfera.

10 min de leitura

Adolescência foi a série mais comentada da Netflix em 2025. Quatro episódios filmados em plano-sequência contam a história de Jamie Miller, um garoto de 13 anos acusado de assassinar uma colega de escola. A reação imediata da audiência foi tentar entender o impossível: como.

A pergunta da série não é só sociológica. A análise majoritária — culpa da manosfera, dos influenciadores do ressentimento masculino, da escola que não vê, dos pais ausentes — captura uma parte do problema. Mas deixa de fora a pergunta clínica: o que se passa internamente em um sujeito que, sem antecedentes evidentes de violência, pratica um ato extremo? Por que a violência irrompe num garoto desse perfil e não em outros expostos aos mesmos conteúdos?

Este texto propõe uma leitura psicanalítica da série — através de Bion (o pensamento e seus colapsos), André Green (a psicose branca) e Winnicott (o gesto antissocial como sinal de esperança que não foi acolhido). Não para fechar a leitura sociológica, mas para abrir uma camada que ela não alcança.

O fenômeno: por que a série bateu tão forte

Adolescência impactou porque expõe o impensável de modo cru: não tenta explicar pelo histórico de abuso, pela pobreza extrema, pela disfunção familiar evidente. Jamie é um garoto comum, de família comum, escola comum. Os pais são afetuosos e atentos. Não há trauma identificável que organize a narrativa em chave de causalidade simples.

Essa recusa narrativa da explicação fácil é o que produz o desconforto. Espectadores saem perguntando “como isso pode ter acontecido”, e a série responde com silêncio. Ou, mais precisamente: aponta para a manosfera, para a rede social, para os comentários cruéis — e mesmo assim deixa claro que isso não basta para explicar. Há um excesso.

O excesso é exatamente o ponto em que a leitura sociológica se esgota e a leitura psicanalítica começa a fazer falta.

A cena do plano-sequência: o que o formato revela

Cada episódio é filmado em plano-sequência ininterrupto. A câmera não corta, não recua para um ângulo seguro, não permite ao espectador descanso. O formato impõe uma temporalidade real — não a temporalidade comprimida do cinema convencional, mas o tempo bruto, com seus silêncios, suas pausas, suas hesitações.

O que esse formato faz com o espectador é o que o trabalho clínico tenta fazer com o paciente: ficar dentro de uma cena tempo suficiente para que o que estava escondido apareça. Não interpretar rápido, não cortar para o próximo plano, não buscar a explicação que tranquiliza.

Há uma cena, no segundo episódio, em que o detetive interroga Jamie e o silêncio se estende por minutos reais. Sem corte. O espectador desconforta. Algo no garoto fica visível nesse silêncio que nenhum diálogo conseguiria mostrar.

Bion e o pensamento que colapsa

Wilfred Bion descreveu o pensar como um trabalho psíquico que se desenvolve a partir de uma matéria-prima básica: a capacidade de tolerar a presença simultânea de impressões contraditórias, frustração, dor — sem evacuá-las imediatamente. Para Bion, o sujeito precisa de outro (a mãe inicialmente, depois outros vínculos) que receba essas impressões, as transforme, e devolva ao bebê algo que possa ser metabolizado. Esse outro é o que Bion chamou de “contínuo materno” ou função alfa.

Quando essa função não opera bem — ou para de operar em um momento crítico — o sujeito fica com material psíquico bruto, sem capacidade de transformar. Bion chamou esse material de elementos beta: experiências não-metabolizáveis que ficam ali, à espera de descarga. A descarga, quando acontece, é por ato — não por pensamento.

Aplicado a Jamie: o que vemos é um adolescente cuja capacidade de pensar a experiência colapsou em algum momento. Os pais oferecem afeto, mas a função alfa (a capacidade de receber, transformar e devolver o que o filho sente) não estava operando no nível necessário. As mensagens da manosfera entram nesse vazio. Comentários cruéis no Instagram entram. Insultos a uma colega entram. Tudo é elemento beta, à espera de descarga.

A explosão de violência é o que Bion chamaria de evacuação — não um pensamento, não uma decisão, mas um descarregamento brusco de material psíquico que nunca foi metabolizado.

André Green e a psicose branca

André Green descreveu uma figura clínica que ajuda a entender Jamie melhor que o diagnóstico psiquiátrico clássico: a psicose branca. Diferente da psicose ruidosa (delírios, alucinações), a psicose branca é silenciosa — caracterizada por um vazio central, uma área da experiência em que nada se constitui.

Para Green, essa figura aparece quando o sujeito tem, na sua história mais primitiva, uma “mãe morta” — não literalmente morta, mas emocionalmente ausente em um período crítico. A criança experimenta o investimento materno e, depois, sua retirada, sem entender por quê. No lugar do vínculo, fica um buraco.

O sujeito da psicose branca não é depressivo no sentido clássico. Funciona socialmente, vai à escola, parece bem. Mas tem uma área da experiência psíquica em que não há sentido. Quando alguma situação toca essa área — uma rejeição amorosa, uma humilhação pública, um insulto que reativa a sensação do vazio — a resposta pode ser desproporcional, opaca, sem que o sujeito mesmo entenda o que está fazendo.

Jamie tem todos os sinais de funcionamento social preservado. Família afetuosa, escola comum, performance estudantil aceitável. Mas há algo que não se constituiu. A humilhação online — ser chamado de “incel”, ser exposto, ser ridicularizado — toca esse vazio. E a resposta sai por ato.

Winnicott e o gesto antissocial

Donald Winnicott escreveu sobre o que chamou de “tendência antissocial” — atos transgressivos em crianças e adolescentes que ele não lia como sinal de maldade, mas como sinal de esperança. Para Winnicott, o gesto antissocial é um pedido: o sujeito está reivindicando do ambiente algo que foi prometido e perdido. Está testando se ainda há alguém que possa dar conta dele.

Essa leitura é difícil de digerir diante de um ato de extrema violência como o de Jamie. Mas Winnicott é claro: o gesto antissocial só acontece quando o sujeito ainda mantém algum resto de esperança. Quando perde essa esperança completamente, não há mais gesto — há apatia, desistência, suicídio frio. O gesto, mesmo o gesto violento, ainda é endereçado a alguém. É pedido.

O que essa leitura permite ver na série: Jamie age em parte porque ainda espera ser visto. A escolha da vítima, o lugar do crime, a forma como permite ser preso quase passivamente — tudo isso é endereçado. Para os pais, para a escola, para um mundo que ele sente que falhou em alguma coisa essencial.

Isso não absolve o ato. Não diminui o crime. Não muda nada para a família da vítima. Mas oferece, do ponto de vista clínico, uma chave de leitura que a análise sociológica não oferece — uma chave que permite pensar prevenção em termos psíquicos, não apenas em termos de regulação de redes sociais.

A manosfera como sintoma — não como causa

A leitura predominante da série atribui o ato à influência da manosfera: Andrew Tate e similares, fóruns incel, masculinidade tóxica como ideologia organizada. Essa leitura tem valor descritivo — sim, a manosfera existe, sim, ela recruta meninos vulneráveis, sim, ela molda discursos.

Mas ela falha como leitura causal pelo seguinte motivo: a manosfera está acessível a milhões de adolescentes. A imensa maioria não comete homicídio. Por que Jamie sim?

Da perspectiva psicanalítica, a manosfera não causa o ato. Ela encontra um terreno psíquico já fragilizado e oferece uma narrativa que faz o vazio parecer ter um inimigo identificável (mulheres, feministas, “Chads”). É um sintoma que se instala no vazio, não a origem do vazio.

Combater a manosfera é necessário, mas insuficiente. Sem trabalho psíquico sobre os vazios que precedem a captura ideológica, o discurso retira um adolescente e outro entra no lugar.

O que a série diz a pais, professores e profissionais de saúde mental

A mensagem clínica de Adolescência, lida com esses três autores em mente, é menos confortável que a mensagem sociológica:

  • Não basta proteger crianças de conteúdos perigosos online — é preciso cuidar da função de metabolização psíquica que se desenvolve em vínculos próximos.
  • Não basta família afetuosa — é preciso família que recebe, transforma e devolve as experiências do filho, especialmente as experiências de humilhação e vazio.
  • Não basta escola atenta — é preciso espaços em que o gesto antissocial menor (uma briga, um ato transgressivo) seja lido como pedido e respondido, não apenas punido.
  • Não bastam diagnósticos psiquiátricos clássicos — é preciso disponibilidade para escutar as figuras clínicas mais sutis, como a psicose branca, em que aparentemente “está tudo bem”.

Essa leitura impõe trabalho aos vínculos primários. Não é uma resposta confortável. Mas é a única que faz justiça à profundidade do que a série mostra.

O perigo da leitura sociológica única

Quando a leitura de Adolescência se limita à sociologia (manosfera + redes sociais + masculinidade tóxica), há um efeito colateral problemático: cria a sensação de que o problema está fora — em ideologias externas, em algoritmos, em conteúdos a regular. Isso permite que pais e instituições se sintam aliviados do trabalho interno.

A psicanálise não dispensa a sociologia. Reconhece que as redes sociais e a manosfera têm peso. Mas insiste que o ato não nasce ali — nasce em uma fragilidade psíquica que foi sendo construída antes, e que encontra na ideologia uma forma. O trabalho psíquico tem que ser feito, junto com o trabalho regulatório.

Adolescência é potente porque resiste à explicação simples. Lê-la a partir de Bion, Green e Winnicott é resistir junto com ela — não fechar o que a série deixou aberto, e fazer o trabalho clínico que essa abertura exige.

Próximos passos

Se a série mexeu com algo seu — em você como pai, mãe, profissional, ou em você mesmo enquanto sujeito — vale levar essa inquietação adiante. Não para encontrar a resposta sociológica que tranquiliza, mas para fazer o trabalho psíquico que ela aponta.

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