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Farmacoterapia

IMAOs seguem pouco usados na prática psiquiátrica, mas podem ser decisivos em casos selecionados de depressão refratária — desde que indicados com avaliação cuidadosa e manejo competente.

6 min de leitura

Existe uma situação recorrente na clínica de quem trata depressão refratária: o paciente que chega ao consultório com um histórico parecido — três, quatro, cinco antidepressivos diferentes (escitalopram, sertralina, venlafaxina, bupropiona), em doses adequadas, sem resposta consistente. Alguns chegam depois de terem feito eletroconvulsoterapia. Mas é raríssimo encontrar alguém que tenha experimentado, em algum momento desse percurso, um inibidor da monoaminoxidase (IMAO). A classe que durante décadas foi referência em depressão refratária foi sendo silenciosamente abandonada — não por falência clínica, mas por uma combinação de medos históricos, dificuldade de manejo e baixa familiaridade nas gerações recentes de psiquiatras.

O que a evidência atual mostra

Uma revisão recente assinada por especialistas internacionais em transtornos afetivos chama atenção para um ponto incômodo: a marginalização dos IMAOs no arsenal clínico atual não se justifica pela ciência disponível. Os medos que cercam a classe — crise hipertensiva por tiramina, interações alimentares perigosas, risco de síndrome serotoninérgica em combinações — foram construídos em evidências de décadas atrás, em um contexto alimentar e medicamentoso que mudou substancialmente desde então.

O que se sabe hoje: o conteúdo de tiramina em alimentos modernos é, na maioria dos casos, muito menor do que no passado, e o risco de crise hipertensiva clinicamente relevante é raro quando o paciente recebe orientação dietética adequada. Já a contraindicação com inibidores seletivos da recaptação de serotonina segue válida e bem caracterizada — e exige washout adequado nas transições. Manejo competente exige educação do paciente, monitoramento pressórico, atenção a interações; não exige medo paralisante.

Em serviços especializados em transtornos afetivos, descreve-se com regularidade que pacientes com depressão crônica e múltiplas falhas terapêuticas costumam responder em poucas semanas a um IMAO bem indicado — tranilcipromina, fenelzina, isocarboxazida —, com taxas de resposta clinicamente significativas em quadros que pareciam definitivamente refratários.

O que isso significa na prática

O ponto crítico é entender o que está acontecendo: pacientes em sofrimento prolongado recebem múltiplas rodadas de tratamentos com perfil de eficácia menos robusto sem que a classe com mais de seis décadas de evidência sequer seja mencionada. Não é prudência clínica — é desinformação consolidada que se autoperpetua. Programas de residência têm reduzido o ensino prático do manejo de IMAOs, farmácias têm dificuldade de estocar essas drogas, planos de saúde exigem autorizações prévias, e a geração de psiquiatras com experiência clínica sólida nessa classe está se aposentando. O resultado é um vão concreto no cuidado.

Há contextos clínicos em que IMAOs sequer deveriam ser considerados “última linha” — depressão atípica (com hipersonia, hiperfagia, reatividade do humor) é exemplo clássico em que essa classe está, historicamente, entre as opções de primeira linha. Em depressão refratária, depois de exclusão adequada de fatores frequentemente confundidos com refratariedade, IMAOs entram com mais força no arsenal terapêutico — desde que com manejo competente.

Como abordo isso no consultório

Quando um paciente chega ao consultório com história de depressão refratária — três, quatro, cinco antidepressivos tentados sem resposta —, o trabalho clínico começa pela investigação do que realmente foi tentado e como. Foi dose adequada? Foi tempo suficiente? Houve adesão real? Houve avaliação que descartasse fatores frequentemente confundidos com refratariedade (transtorno bipolar tipo 2 não identificado, trauma psíquico, alterações tireoidianas, uso de substâncias mascarando o quadro)? Em muitos casos, o rótulo de “refratária” esconde, na verdade, uma sequência de tratamentos que nunca seguiu lógica clínica estruturada.

Quando essa investigação confirma refratariedade real, o arsenal terapêutico se amplia — e os IMAOs voltam a fazer parte da conversa de forma legítima. Em alguns perfis (depressão atípica, por exemplo), são até primeira linha. O uso responsável dessa classe exige manejo competente: educação dietética detalhada, monitoramento pressórico, atenção a interações, transições medicamentosas com washout adequado, acompanhamento próximo. Há cuidado clínico — não há misticismo nem medo paralisante.

A primeira consulta dura até duas horas porque pacientes que passaram por múltiplas tentativas anteriores precisam de tempo para que cada tentativa anterior seja entendida em detalhe. Sem isso, qualquer escolha de próximo medicamento é apenas mais um palpite.

Perguntas frequentes

IMAOs realmente causam crise hipertensiva pelos alimentos?
O risco existe, mas é muito menor do que se descreve historicamente. O conteúdo de tiramina em alimentos modernos é, em geral, baixo. Com orientação dietética adequada e atenção a alguns alimentos específicos (queijos curados, alguns embutidos, fermentados específicos), o risco clínico relevante é raro.

E se eu tomar um ISRS junto com um IMAO?
Essa é uma combinação contraindicada — risco real de síndrome serotoninérgica. As transições entre IMAO e outros antidepressivos serotonérgicos exigem washout adequado, conforme orientação do psiquiatra que conduz o caso.

Por que tantos psiquiatras evitam IMAOs?
Por uma combinação de fatores: medos históricos não atualizados pela literatura, baixa exposição ao manejo prático durante a residência, barreiras burocráticas (autorização de planos, dificuldade de estoque), e a perda gradual da geração com experiência clínica robusta com a classe. O resultado é desuso que se autoperpetua — não baseado em evidência atual.


Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação clínica individual. Não inicie ou suspenda medicações por conta própria. Em caso de ideação suicida, ligue para o CVV (188) ou procure pronto-socorro.


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