O paradoxo do psiquiatra: cuidar da saúde mental alheia e adiar a própria. Reflexões sobre esgotamento, depressão e busca por sentido na medicina.

O psiquiatra que não cuida de si mesmo
Existe uma situação recorrente na clínica de quem atende colegas médicos da psiquiatria: o psiquiatra que evita o próprio tratamento — não por desconhecimento (afinal, conhece a doença), mas justamente por uma resistência específica de quem está acostumado a estar no lugar de quem cuida. Costuma chegar tarde, depois de muito esgotamento acumulado, e quase sempre carregando a mesma justificativa pronta: “não tenho tempo agora”, “estou maduro o suficiente”, “não tenho condições financeiras no momento”, “vou esperar a agenda esfriar”. É um padrão que se repete o suficiente para deixar claro um paradoxo da profissão: justamente quem cuida da saúde mental dos outros evita cuidar da própria.
Uma pesquisa internacional recente coloca números nessa experiência que vejo repetir: 40% dos psiquiatras entrevistados se sentem esgotados profissionalmente, e 16% experimentam depressão ativa. Entre os mais jovens — psiquiatras de 28 a 43 anos — o burnout sobe para 46%. O que me chama atenção não é o dado em si, mas a silhueta por trás dele: médicos que abrem espaço para a angústia alheia, mas trancafiam a porta quando chega a vez deles.
O que a pesquisa mostrou
Uma pesquisa internacional recente entrevistou centenas de psiquiatras sobre felicidade, equilíbrio profissional e saúde pessoal. Os achados são francos. Apenas 26% dos psiquiatras mais jovens e 29% dos veteranos relataram melhoria no equilíbrio trabalho-vida nos últimos três anos. Com relacionamentos familiares, 28% dos mais jovens e 26% dos mais antigos viram alguma melhora. Quanto a amizades que sustentam o bem-estar — elemento crítico para quem vive a densidade emocional da psiquiatria — apenas 26% de mileniais e 17% dos colegas mais velhos identificaram evolução positiva.
O paradoxo? Oitenta e dois por cento dos psiquiatras acreditam que é possível alcançar felicidade e equilíbrio na medicina. Mas 45% das mulheres e 40% dos homens na especialidade relataram estar esgotados ou deprimidos. Há uma fissura entre o ideal e a realidade vivida — exatamente onde a análise pessoal se mostra necessária e incomparável.
O que isso significa na prática
Na minha leitura clínica, o ponto crítico é que o psiquiatra absorve a patologia alheia sem estrutura suficiente para metabolizá-la. Oitenta e seis por cento dos entrevistados reconhecem que hobbies e interesses pessoais são fundamentais para manter estabilidade mental — mas quantos realmente os praticam com regularidade? É fácil prescrever para um paciente: “Você precisa de atividades que trazem alegria.” É outra coisa honrar isso para si mesmo quando a agenda está cheia de histórias de sofrimento que não saem da mente ao final do expediente.
O que observo é que psiquiatras tendem a empurrar pra depois qualquer pausa que os obrigue a olhar pra si mesmos. Não como falta de consciência — ninguém sabe melhor que um psiquiatra o custo dessa evitação. Mas como racionalização silenciosa: “Sou maduro o bastante”, “Já tenho experiência”, “Não tenho tempo para isso agora”. O resultado é um acúmulo do que ficou sem ser examinado, limites profissionais enfraquecidos e, eventualmente, os sintomas que vemos nos dados: burnout, depressão, relacionamentos familiares ressecados.
Como abordo isso no consultório
Quando um médico — incluindo um colega psiquiatra — chega ao consultório, a primeira conversa não começa pela medicação. Começa pela pessoa. Independentemente de o caso pedir remédio ou não, o convite é o mesmo: olhar para si. Como está a vida nesse momento? Está satisfeito com o jeito que tem levado? Sabe pra onde está indo? Onde — e como — gostaria de estar daqui a alguns anos? O que faz sentido na vida pessoal, fora da medicina?
Muitos colegas nunca tinham parado para fazer essas perguntas. Essa conversa abre uma porta — não para tomar remédio em primeira linha, mas para a possibilidade de resgatar a saúde mental e buscar sentido na própria trajetória. Quando o quadro clínico pede farmacoterapia, ela entra com lógica clínica clara, baseada em literatura atualizada (como o CANMAT). Quando pede psicoterapia, ela entra articulada com o restante do trabalho. Quando pede terapia combinada, as duas se sustentam em diálogo.
A primeira consulta dura até duas horas porque escutar a história inteira de um médico — burnout acumulado, sentimento de inadequação, perdas profissionais, traumas que não saem da cabeça — exige tempo de verdade. Confidencialidade é regra. Atendimento online, fora da rede habitual do colega quando isso é fator de sigilo. Sem julgamento, sem pressa.
Perguntas frequentes
P: O psiquiatra precisa fazer psicoterapia?
R: A meu ver, é fundamental que o psiquiatra se trate. Trata-se de ampliar algo essencial na nossa prática: a capacidade de receber e sustentar dentro de si as angústias que o paciente traz e ainda não consegue tolerar sozinho. Quando o psiquiatra evita esse trabalho, os pontos cegos da própria psique se acumulam — e agem em dois lugares. No próprio profissional, viram sobrecarga e abrem caminho pro adoecimento. No consultório, escapam de formas sutis: esquecimentos com certos pacientes, sonolência diante de outros, aversão inexplicável a determinados casos, ou mesmo excesso de prescrição como atalho pra evitar o desconforto da escuta. Tratar-se é, portanto, também um cuidado com o paciente.
P: Por que tantos psiquiatras ainda evitam procurar ajuda?
R: Porque a evitação opera num nível que não é o da decisão consciente. Não é que o psiquiatra olhe para si, reconheça o sofrimento e escolha não buscar ajuda — algo dentro dele desvia o olhar antes mesmo de o sofrimento se nomear. São resistências narcísicas: defesas inconscientes ligadas à própria identidade profissional, à fantasia de que somos os que tratam, não os que precisam ser tratados. E o que essas defesas protegem é o mais difícil de tocar: a dor, a falta, o desamparo, os traumas da história pessoal. Em muitos casos, foi exatamente esse núcleo de sofrimento que levou o colega à medicina e à psiquiatria — como uma tentativa silenciosa de se proteger e de ganhar algum controle sobre as próprias dores. Por isso saber psiquiatria, conhecer os mecanismos do burnout ou ler sobre transferência não atravessa a defesa. O que é inconsciente não cede a conhecimento. O estudo, paradoxalmente, pode acabar servindo à mesma proteção. A defesa só cede onde sempre cedeu: no trabalho terapêutico. É ali, na experiência de estar do outro lado, que algo se move — abaixar a guarda, permitir-se confiar no terapeuta como objeto de relação, associar livremente. E é na vivência a dois dessa relação que aparece, nas próprias palavras e silêncios, o que a teoria nunca alcança.
P: Medicação resolve o burnout do psiquiatra?
R: O remédio tem lugar — e um lugar importante. Na psicoterapia combinada, sobretudo no início do tratamento, quando o paciente costuma chegar fragilizado, a farmacoterapia funciona como aliada do processo terapêutico: melhora a capacidade de reflexão e sustenta a adesão ao tratamento. O ponto não é remédio ou psicoterapia. A união dos dois, em terapia combinada, tem poder de tratamento superior à tentativa isolada de cada método.
Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação individual. Se você experimenta ideação suicida, ligue para o CVV (188) ou procure o pronto-socorro imediatamente.
Se você é psiquiatra (ou médico de outra especialidade) e está postergando o próprio cuidado, talvez já saiba qual é o próximo passo — a parte difícil é fazer dele uma decisão prática, com data e horário.
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