Nem todo ganho de peso durante o tratamento vem do remédio, e nem todo antidepressivo age da mesma forma sobre o apetite. Por que parar sozinho costuma ser o pior caminho e o que vale levar para a consulta.

A calça jeans de sempre não fecha mais. Ela tenta de novo, desiste, troca por um vestido mais largo e sai atrasada para o trabalho. Faz cinco meses que começou o antidepressivo. Faz cinco meses que dorme melhor, chora menos e voltou a almoçar com as colegas. E faz cinco meses que a balança sobe um pouco a cada mês.
Na consulta, ela fala do sono, do trabalho, da mãe. Do peso, não fala. Em casa, porém, a decisão já está quase tomada: se for culpa do remédio, prefere parar.
Antidepressivo engorda?
Alguns, sim, em algumas pessoas. Mas dizer apenas que o antidepressivo engorda seria simplificar demais, e a resposta honesta tem mais de uma parte. A primeira é que os antidepressivos não são iguais nesse ponto: há os que costumam aumentar o apetite de forma clara, às vezes já nas primeiras semanas, e há os que, na maioria das pessoas, mexem pouco com o peso. A segunda é que, com o mesmo remédio, a resposta varia muito de uma pessoa para outra.
A terceira parte quase nunca entra na conversa: nem todo ganho de peso durante o tratamento é efeito do antidepressivo. Uma parte, às vezes grande, vem da própria melhora, do sono, do movimento que diminuiu, do que se bebe. Separar uma coisa da outra é o primeiro passo, e esse trabalho se faz junto com o psiquiatra, não sozinho diante do espelho.
Às vezes o peso volta porque a depressão está indo embora
Muita gente esquece que a depressão também mexe com a fome. Em muitos casos, ela tira o gosto da comida, faz pular refeições, transforma o almoço numa obrigação. O peso cai sem que ninguém perceba direito, porque há coisas mais urgentes acontecendo.
Quando o tratamento começa a funcionar, o apetite volta, e o gosto da comida volta com ele. Parte do que a balança mostra, nesses casos, não é efeito colateral: é o corpo retomando o peso que tinha antes de adoecer. Isso não torna o ganho menos real, mas muda bastante o que ele significa.
Há também o caminho inverso. Algumas depressões aumentam a fome em vez de diminuir, com vontade de doce, de comer à noite, de dormir mais do que o normal. E há quem coma para aliviar a angústia, quase sem perceber. Nesses casos, o peso às vezes começou a subir antes do remédio, e o antidepressivo leva a culpa por um processo que já estava em curso.
O sono, o movimento e o álcool também mexem com a balança
O sono ruim aumenta a fome. Não é falta de força de vontade: noites mal dormidas mexem com os sinais que o corpo usa para regular o apetite e a saciedade, e o resultado costuma ser mais vontade de comer, sobretudo coisas doces e calóricas.
A depressão também diminui o movimento: menos caminhada, menos rua, mais horas parado. Alguns remédios dão sonolência, o que soma a isso. E o álcool entra duas vezes na conta, pelas calorias que traz e pelo freio que solta na hora de comer, além de piorar o sono e o humor nos dias seguintes.
Há ainda o que não tem relação com o tratamento e acontece na mesma época: alterações da tireoide, a transição para a menopausa, o abandono do cigarro, outros remédios em uso, alguns bem conhecidos por mexer com o peso. Entre os trinta e os sessenta anos, o corpo muda de qualquer jeito, e nem tudo o que acontece nesse período é obra do antidepressivo.
Alguns remédios mexem mais com o apetite do que outros
Dito isso, o efeito do remédio existe e não deve ser minimizado. Alguns antidepressivos agem em mecanismos do cérebro ligados à fome e ao sono, e por isso aumentam o apetite, a vontade de doce e a sonolência. É o caso de antidepressivos mais antigos, como a amitriptilina, e da mirtazapina, conhecidos justamente por isso. Entre os do grupo mais receitado hoje, o mesmo da sertralina e da fluoxetina, o efeito sobre o peso costuma ser menor e mais lento, aparecendo às vezes só depois de meses de uso. Nesse grupo, a paroxetina é a mais lembrada quando o assunto é peso.
Há também os remédios que às vezes acompanham o antidepressivo. Alguns antipsicóticos, que apesar do nome também são usados no tratamento da depressão e de outros quadros, e alguns estabilizadores do humor costumam pesar mais na balança do que o próprio antidepressivo. Alguns deles mexem ainda com a forma como o corpo lida com açúcar e gordura, o que pede um acompanhamento específico.
Em todos os casos, vale a mesma ressalva: duas pessoas com o mesmo remédio podem ter histórias opostas com o peso. A bula diz o que pode acontecer, não o que vai acontecer com cada um.
Parar por conta própria costuma ser o pior caminho
Quando o peso incomoda, a saída que parece mais simples é parar o remédio. É compreensível, e é um pedido que aparece com frequência no consultório. O ganho de peso aparece todos os dias, no espelho, na roupa, no comentário de alguém. A melhora da depressão é mais discreta, e fica fácil esquecer de onde se saiu.
Só que parar sozinho costuma custar caro. A interrupção brusca de um antidepressivo pode trazer um mal-estar próprio, com tontura, irritação, enjoo e sensações parecidas com pequenos choques, que muita gente confunde com piora. E a depressão pode voltar, às vezes devagar, às vezes de uma vez. Quando volta, traz junto a bagunça no sono e no apetite, e o peso ganho nem sempre vai embora só porque o remédio foi suspenso.
Há ainda um custo menos visível. Quando a pessoa para em segredo, o psiquiatra segue avaliando um tratamento que já não está acontecendo, e os dois passam a olhar para coisas diferentes. Por isso, vale dizer com todas as letras: não pare sozinho, converse com quem acompanha. O peso é um motivo legítimo para essa conversa, e não uma vaidade.
Quando o peso pede uma reavaliação do tratamento
Se o ganho de peso está incomodando, ou se a vontade de parar já apareceu, isso merece entrar na consulta com a mesma importância que o sono ou o humor. Ajuda levar algumas informações:
- quando o peso começou a mudar, em relação ao início do remédio e à melhora;
- como mudou o apetite: mais fome, vontade de doce, vontade de comer à noite;
- como andam o sono, o movimento e o álcool;
- outros remédios em uso e mudanças de saúde no mesmo período;
- o peso de antes da depressão e o que esse ganho significa para você;
- o quanto o remédio ajudou, porque essa é a outra metade da conta.
Com isso, a avaliação consegue separar o que é do remédio, o que é da melhora e o que vem de outro lugar, olhando o conjunto junto com a história de vida, o diagnóstico e os tratamentos anteriores. O que fazer a partir daí não cabe num texto. Esse caminho se decide na consulta, com a história inteira na mesa, e inclui o acompanhamento do peso e, quando indicado, de alguns exames ao longo do tratamento.
Há uma parte dessa conversa que vai além da balança. A relação com a comida e com o próprio corpo costuma carregar uma história longa, e às vezes a comida está sendo chamada para fazer um trabalho que não é dela, como acalmar, preencher, consolar. Com a psicoterapia de orientação analítica, fica possível pensar sem julgamento no que a comida está tentando resolver e no que o corpo passou a representar depois da depressão.
O peso que incomoda merece ser levado a sério, e o tratamento que ajudou também. Os dois cabem na mesma conversa.
Perguntas frequentes
Qual antidepressivo engorda mais?
Os mais associados ao aumento de apetite e de peso são alguns antidepressivos mais antigos, como a amitriptilina, e a mirtazapina. Entre os mais receitados hoje, o efeito costuma ser menor e mais lento. Ainda assim, a resposta varia muito de pessoa para pessoa, e a escolha do remédio pesa muitas outras coisas além da balança.
Se eu parar o antidepressivo, eu emagreço?
Não necessariamente, porque o ganho de peso costuma ter mais de uma causa ao mesmo tempo. Parar por conta própria ainda traz riscos que pesam mais do que a balança, como a volta dos sintomas e o mal-estar da interrupção brusca. Só uma avaliação consegue separar o que é do remédio e o que não é.
Ganho de peso com antidepressivo é normal?
É um efeito conhecido de alguns antidepressivos, mas não é inevitável nem igual para todo mundo. Também pode ter outras causas, como a volta do apetite com a melhora da depressão, e por isso merece ser contado ao psiquiatra desde o começo.
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Dr. Leonardo Sodré é médico psiquiatra e psicoterapeuta em Brasília (CRM-DF 14.206 · RQE 14.761). Doutor em Psiquiatria pela UFRGS e professor na Faculdade de Medicina da UnB. Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento individual.