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Condições e Diagnósticos

O diagnóstico mais distribuído em época de eleição, quase sempre para o candidato do outro. O que é psicopatia de verdade e por que nenhum psiquiatra sério responde ao título.

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Ilustração para o artigo: Meu candidato é psicopata?

Noite de debate. O programa ainda nem terminou e o grupo da família já tem um laudo. O tio manda um vídeo de quarenta segundos, cortado no ponto exato, com música de suspense ao fundo: um candidato sorri na hora errada. Embaixo, a legenda: “Reparem no olhar. Psicopata.”

Quatro minutos depois, a prima responde com outro vídeo. Outro candidato, outro sorriso fora de hora, a mesma música de suspense. A legenda é quase idêntica. Ninguém no grupo é psiquiatra, ninguém jamais esteve a menos de cem metros de nenhum dos dois, e todos têm certeza absoluta.

Com pequenas variações, essa cena se repete em milhares de grupos nesta reta final de campanha. “Psicopata” talvez seja o diagnóstico mais distribuído do país em outubro, e o único que dispensa consulta.

Se você chegou até aqui esperando a confirmação de que o candidato do outro lado é psicopata, repare no título. Ele diz “meu”. Foi de propósito.

Psicopatia não é xingamento, nem loucura

Para entender o que é psicopatia de verdade, vale começar pela palavra. Ela nasceu no século XIX, do grego psyché, mente, e pathos, sofrimento. Ao pé da letra, psicopata seria qualquer pessoa que sofre da mente, o que, a julgar pelos grupos de família em outubro, incluiria o eleitorado inteiro.

O sentido que a psiquiatria usa hoje ganhou forma em 1941, quando o psiquiatra americano Hervey Cleckley publicou The Mask of Sanity, “a máscara da sanidade”. Ele descreveu pessoas que impressionavam pelo charme e pela desenvoltura e que, olhadas de perto e com o tempo, mostravam outra coisa: mentira fácil, ausência de culpa e de remorso, afeto raso, pouca empatia, os outros usados como instrumento, nenhuma lição aprendida com as consequências. Décadas depois, o psicólogo canadense Robert Hare transformou essa descrição numa escala de avaliação que ainda hoje é referência na pesquisa. Ela exige uma entrevista longa, feita por profissional treinado, e o exame da história de vida da pessoa, com registros e informações de quem convive com ela.

Duas confusões aparecem quase sempre. A primeira é tomar psicopata por louco. Psicose é a perda de contato com a realidade, com delírios ou alucinações. A pessoa com psicopatia costuma estar perfeitamente orientada, às vezes mais calma que todo mundo à volta, e é exatamente isso que o título de Cleckley queria dizer: a máscara é a própria sanidade. A segunda é tomar psicopata por assassino de filme. O que a pesquisa descreve costuma ser bem menos cinematográfico: promessas descartadas, mentiras sem constrangimento, gente usada e deixada para trás. Um estrago que deixa mais rastro em contas bancárias e casamentos do que em séries policiais.

E é raro. As estimativas mais citadas na população geral ficam em torno de 1%, às vezes menos. Se todos os candidatos chamados de psicopata numa campanha fossem mesmo, a epidemiologia teria um problema sério. Nos manuais diagnósticos, aliás, psicopatia nem é um diagnóstico à parte: o parente mais próximo é o transtorno de personalidade antissocial, que se sobrepõe a ela, mas não é exatamente a mesma coisa.

Por que o psicopata é sempre o candidato do outro

Em 1948, num programa de rádio da BBC, o filósofo Bertrand Russell propôs uma brincadeira que ficou conhecida como conjugação emotiva. Era algo como: eu sou firme, você é teimoso, ele é uma mula. O comportamento é o mesmo; muda só quem o pratica. Em época de eleição, essa conjugação funciona com precisão de relógio. O meu candidato é estratégico; o seu é manipulador. O meu é firme; o seu é frio. O meu mudou de ideia porque amadureceu; o seu, porque mente.

A ciência política já mediu isso. Num estudo publicado em 2016, os pesquisadores americanos Ryan Claassen e Michael Ensley apresentaram a eleitores notícias fictícias sobre truques sujos de campanha, como placas do adversário que sumiam e telefonemas que informavam o horário errado de votação, e sortearam qual partido aparecia como culpado. A mesma trapaça foi tratada com mais indulgência quando vinha do próprio lado. O título do artigo resume o achado melhor do que qualquer tabela: “o meu é um malandro simpático; o seu, um criminoso degenerado”.

A psicanálise ajuda a entender por quê. Melanie Klein descreveu, em 1946, como em momentos de muita ansiedade a mente tende a dividir o mundo em bons e maus e a enxergar no outro aquilo que não suporta em si. Numa campanha, todo mundo sente raiva, torce para o adversário se dar mal, aplaude uma meia verdade que favorece o seu lado. A palavra “psicopata” oferece um endereço perfeito para tudo isso. Frieza, cálculo, indiferença ao sofrimento alheio: está tudo lá, do outro lado, e a mim sobra só a indignação.

Há ainda uma vantagem silenciosa nesse rótulo. Se ele não sente nada, eu não preciso sentir nada por ele. E a lógica raramente para no candidato. Logo vem a pergunta seguinte: e quem vota num psicopata, é o quê? A palavra que começou na TV termina no almoço de domingo, apontada para o cunhado.

Os traços que existem em todo mundo

O psicólogo americano Scott Lilienfeld, um dos grandes estudiosos do tema, comparava os traços psicopáticos à altura e ao peso: todo mundo tem um pouco, em graus diferentes, espalhados de forma contínua pela população. Em 2002, pesquisadores de uma universidade canadense deram nome a um trio de características que aparecem em doses moderadas em gente comum, sem nenhum transtorno: narcisismo, maquiavelismo e traços psicopáticos. Chamaram de tríade sombria. Ter um pouco de cada uma é só ser humano, inclusive para quem lê este texto e para quem o escreve.

Em 2012, a equipe de Lilienfeld publicou um estudo curioso. A partir de avaliações de personalidade de 42 presidentes americanos, feitas por biógrafos, jornalistas e estudiosos de cada um deles, os pesquisadores examinaram um dos traços do conjunto da psicopatia, a chamada dominância destemida: ousadia, pouca ansiedade social, facilidade de ocupar uma sala. Esse traço apareceu associado a avaliações melhores de liderança, persuasão e gestão de crises. Outro traço do mesmo conjunto, a impulsividade egocêntrica, foi na direção contrária e se ligou a indicadores ruins, como tolerar comportamento antiético de subordinados. O presidente com a maior pontuação de ousadia ficou abaixo da média em impulsividade, o que, segundo a análise, o deixava longe de ser psicopata. Não se tratava de diagnóstico, e sim de traços estimados por especialistas a partir da vida pública de cada presidente.

A lição serve para qualquer eleição. A política atrai gente ousada, persuasiva, que tolera conflito e não perde o sono com críticas. Em excesso, alguns desses traços fazem parte da psicopatia. Em doses comuns, fazem parte de quase toda liderança. Ousadia não é psicopatia. Charme não é psicopatia. Mudar de posição não é psicopatia. O que define o quadro é o conjunto, persistente, ao longo de uma vida, e sobretudo a ausência de culpa e de empatia. Que são justamente as coisas que um debate de TV não mostra.

Por que nenhum psiquiatra sério responde ao título

Em 1964, uma revista americana chamada Fact enviou um questionário a 12.356 psiquiatras perguntando se o senador Barry Goldwater, candidato à presidência, tinha condições psicológicas para o cargo. Responderam 2.417. Desses, 1.189 disseram que não, sem nunca o terem examinado. Goldwater perdeu a eleição, processou a revista e ganhou. Em 1973, a Associação Americana de Psiquiatria transformou o constrangimento em regra: psiquiatra não emite opinião profissional sobre quem não examinou. Ficou conhecida como regra Goldwater.

No Brasil, o Código de Ética Médica vai na mesma direção. Proíbe o médico de prescrever sem exame direto do paciente e de “consultar, diagnosticar ou prescrever por qualquer meio de comunicação de massa”. Vale para os dois candidatos do segundo turno, para todos os outros, e vale para este texto também.

Mas não é só uma questão de ética. É de método. O candidato do debate é, em boa parte, um produto: ensaiado, treinado por especialistas em mídia, com respostas cronometradas e cortes escolhidos a dedo. O que se vê é a campanha, não a pessoa. Avaliar alguém pelo debate é como avaliar um hambúrguer pela foto da propaganda. E mesmo com a pessoa à frente, um diagnóstico desses pede horas de entrevista, a história de décadas e o relato de quem convive com ela. Às vezes, nem assim a resposta é simples.

A pergunta mais difícil é sobre o próprio candidato

Quase ninguém faz a pergunta do título sobre o próprio candidato, e há uma razão para isso. Em 1921, em Psicologia das massas e análise do eu, Freud descreveu como o líder passa a ocupar, para quem o segue, o lugar de um ideal. Quando isso acontece, a crítica, tão afiada diante do adversário, se cala diante do escolhido. Criticá-lo começa a parecer criticar a si mesmo.

Fazer a pergunta sobre o próprio candidato não é procurar um diagnóstico. Esse, como vimos, não se faz pela TV, para lado nenhum. É recuperar algo que a campanha costuma levar embora: a capacidade de enxergar o próprio candidato inteiro, com qualidades e defeitos, e votar nele mesmo assim, sem precisar transformá-lo em herói. Talvez seja a pergunta mais adulta de uma eleição. Não “o outro é psicopata?”, mas “o que eu prefiro não ver no meu?”.

E vale lembrar um efeito colateral do apelido. Quando “psicopata” vira xingamento, reforça a velha ideia de que transtorno mental é sinônimo de maldade. Quem convive com uma condição psiquiátrica real, e é muita gente, paga essa conta.

Quando a política ocupa espaço demais

Para a maior parte das pessoas, chamar o candidato do outro de psicopata é um exagero de outubro, que passa junto com a campanha. Em alguns casos, porém, a política começa a ocupar um espaço desproporcional. Quando a pessoa passa horas caçando, em vídeos e cortes, provas de que estava certa. Quando o sono some por várias noites. Quando a desconfiança se espalha do candidato para os parentes, os colegas, os vizinhos, e a sensação de estar cercado de gente mal-intencionada não sai da cabeça nem longe do noticiário. Quando o sofrimento passa a tomar conta do dia.

Nesses momentos, a psicoterapia de orientação analítica oferece um lugar bem diferente do grupo da família. Não para decidir quem tem razão, nem para mudar o voto de ninguém, mas para entender o que a raiva do candidato do outro lado está carregando, e o que a admiração pelo próprio está protegendo. Com frequência, essas figuras públicas acabam vestindo personagens bem mais antigos da nossa própria história.

O tio e a prima, aliás, não são psicopatas. Estão só em outubro.

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Dr. Leonardo Sodré é médico psiquiatra e psicoterapeuta em Brasília (CRM-DF 14.206 · RQE 14.761). Doutor em Psiquiatria pela UFRGS e professor na Faculdade de Medicina da UnB. Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento individual.