A eleição passou e a briga continua. Sobre as relações que já estavam feridas e encontraram na política um motivo respeitável para brigar.

O aniversário da mãe caiu dois dias depois da eleição. Os dois irmãos chegaram em horários diferentes, cumprimentaram todo mundo e foram se sentar nas pontas opostas da mesa. Ninguém comentou. A mãe cortou o bolo olhando de um para o outro, do jeito de quem já tinha visto aquela distância antes, em outros tempos, por outros motivos.
A briga tinha sido semanas antes, numa troca de áudios que começou com um comentário sobre o debate e foi crescendo noite adentro. Um votava de um jeito, o outro do outro, e isso nunca tinha sido segredo. Mas, lá pelo quarto ou quinto áudio, a política já tinha ficado para trás. Um disse que o irmão sempre tinha se achado melhor do que todo mundo. O outro respondeu que pelo menos não tinha passado a vida esperando o pai resolver os problemas dele.
Nenhuma das duas frases fala de eleição. As duas têm uns trinta anos.
No consultório, essa é uma das formas mais comuns com que a política aparece depois que as urnas se fecham: não como divergência de ideias, mas como o capítulo mais recente de uma história que começou muito antes. A eleição acabou. A briga, curiosamente, não.
Quando a discussão vai parar longe do assunto
Há um sinal que costuma denunciar o pretexto: a briga começa num tema e termina em outro. Começa com um fato, uma pesquisa, a frase de um candidato, e em poucos minutos chega ao caráter da pessoa. “Você sempre”, “você nunca”, “é por isso que ninguém te aguenta”. O passado entra sem ser chamado. Episódios de vinte anos atrás reaparecem com detalhes precisos, como se estivessem guardados numa gaveta, esperando a ocasião.
Outro sinal é a desproporção. Divergências políticas sérias existem e podem doer de verdade, porque falam de valores. Mas quando a intensidade da raiva é muito maior do que a distância real entre as opiniões, ou quando duas pessoas que concordam em quase tudo brigam como se fossem inimigas, vale desconfiar de que o assunto em pauta não é o assunto de fato.
A política, por si só, já tem força para afastar. Um estudo publicado na revista Science em 2018 estimou que, no feriado de Ação de Graças de 2016, nos Estados Unidos, os jantares entre famílias de regiões que tinham votado em partidos opostos foram de 30 a 50 minutos mais curtos; outros pesquisadores calculam um efeito menor. O que nenhuma pesquisa desse tipo consegue medir é o que já estava sentado à mesa antes de o jantar começar.
O sedimento que toda relação próxima carrega
Freud tem uma observação sobre isso que costuma surpreender quem a lê pela primeira vez. Em Psicologia das massas e análise do eu, de 1921, ele escreve que quase toda relação afetiva íntima e duradoura entre duas pessoas, seja um casamento, uma amizade ou a relação entre pais e filhos, deixa um sedimento de sentimentos de aversão e hostilidade. Esse sedimento existe mesmo onde há amor, e em geral não é percebido, porque é empurrado para fora da consciência (o que a psicanálise chama de recalque). Quando a hostilidade se dirige a alguém que também é amado, Freud fala em ambivalência.
No mesmo trecho, ele lembra uma imagem de Schopenhauer. Num dia de inverno, porcos-espinhos se apertam uns contra os outros para se aquecer, sentem os espinhos, se afastam, voltam a se aproximar por causa do frio, até encontrar uma distância em que seja possível ficar sem congelar e sem se ferir. Toda família passa a vida procurando essa distância.
O que a observação de Freud ajuda a entender é que a hostilidade entre pessoas próximas não é anomalia de algumas famílias. Faz parte da intimidade. A diferença está no que cada família consegue fazer com ela: reconhecer, conversar, ir elaborando aos poucos, ou guardar até que apareça uma ocasião em que ela possa sair sem parecer o que é.
Por que a eleição é uma roupa tão boa
Poucas ocasiões oferecem à hostilidade antiga um traje tão respeitável quanto uma eleição. Na política, a raiva pode se apresentar como princípio. A mágoa vira convicção. O ressentimento ganha argumentos, números, uma causa. A pessoa pode dizer, com toda a sinceridade, que não é nada pessoal, enquanto diz a coisa mais pessoal que já disse.
A eleição também oferece lados, e lados reproduzem com facilidade as alianças de uma família. Quem sempre esteve mais perto do pai, quem sempre esteve com a mãe, quem era o preferido, quem se sentia de fora. A irmã que passou a infância à sombra do irmão encontra no voto dele a prova de que ele nunca pensou por conta própria; o irmão encontra no voto dela a prova de que ela sempre quis ser diferente da família. Os candidatos poderiam estar trocados, e as frases seriam as mesmas.
Com pais e filhos acontece algo parecido. O filho que nunca se sentiu ouvido pelo pai encontra, numa discussão sobre o segundo turno, a primeira chance de enfrentá-lo de igual para igual. O pai que nunca aceitou bem as escolhas do filho vê no voto dele um resumo de tudo o que desaprova. Nos casais, a divergência política pode virar a versão dizível de uma decepção que não se conseguia dizer: “nós somos muito diferentes” é mais fácil de pronunciar do que “eu me sinto sozinho neste casamento há anos”.
O que se perde quando a briga acontece no lugar errado
O problema do pretexto é que ele não resolve nada. A discussão sobre política pode durar anos sem que ninguém mude de ideia e, mesmo que alguém mudasse, a frase sobre o irmão que sempre se achou melhor continuaria sem resposta. A ferida verdadeira não entra na conversa. Entra só a roupa dela.
E a briga deslocada ainda acrescenta uma camada. Ao conflito antigo, que nunca foi falado, soma-se agora o ressentimento novo pelo que foi dito durante a campanha. Quando a eleição passa, o assunto político esfria, mas a distância fica. É comum a pessoa estranhar: se a eleição acabou, por que a gente continua sem se falar?
Vale um cuidado no sentido contrário. Nem toda divergência política é sintoma, e posição política não é doença de ninguém. Há brigas que são, de fato, sobre valores, e há distâncias que se impõem por diferenças reais. Reduzir tudo à infância seria outra forma de não escutar. A pergunta não é se a política importa. É se, naquela briga específica, é dela que se está falando.
Quando vale olhar com mais cuidado
Há situações em que essa pergunta merece um espaço próprio. Quando a briga política repete, quase palavra por palavra, acusações que já apareceram em outras épocas, por outros motivos. Quando a raiva não cede depois da eleição e começa a se espalhar para outras relações. Quando o casamento passou a ter a política como único assunto possível, ou como único jeito de brigar. Quando a pessoa percebe que perdeu o sono, o apetite ou a paz por causa de um conflito familiar que ela mesma não entende direito, ou quando o sofrimento passa a tomar conta do dia.
É aqui que a psicoterapia de orientação analítica tem algo próprio a oferecer. Não se trata de ensinar a conversar melhor, nem de promover uma reconciliação a qualquer custo, nem de convencer ninguém a abrir mão do que pensa. Trata-se de ter um lugar para reconhecer o conflito antigo debaixo da roupa nova: o que estava sendo dito por meio da política, para quem, e há quanto tempo. Às vezes, depois disso, a conversa com o irmão ou com o pai fica possível. Às vezes a pessoa conclui que certas distâncias são necessárias. Nos dois casos, ela passa a escolher a distância, em vez de ser carregada por ela.
A eleição passou. Se a briga continua, é provável que ela nunca tenha sido sobre a eleição.
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Dr. Leonardo Sodré é médico psiquiatra e psicoterapeuta em Brasília (CRM-DF 14.206 · RQE 14.761). Doutor em Psiquiatria pela UFRGS e professor na Faculdade de Medicina da UnB. Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento individual.