Debates até tarde, grupos apitando de madrugada, discussões que tiram o sono. Para quem tem transtorno bipolar ou trata uma depressão, o sono destas semanas diz muito.

São quase duas da manhã e a única luz acesa na casa vem do escritório. Lá dentro, alguém que deveria estar dormindo há horas grava um áudio em voz baixa, responde a três grupos ao mesmo tempo, abre mais um vídeo. Do quarto, a esposa ouve o teclado e não sabe se levanta. De manhã ele vai estar de pé antes de todo mundo, animado, falando rápido sobre a reunião de sábado e a lista de pessoas para ligar. Vai dizer que nunca se sentiu tão bem. E vai ter dormido quatro horas pela terceira noite seguida.
Em outra casa, a cena é o avesso. Uma mulher que trata uma depressão há dois anos, e estava bem, começou a acordar às quatro da manhã com o coração acelerado. Pega o celular, lê as notícias, não volta a dormir. Passa o dia mais lenta, mais calada, sem vontade de responder à irmã com quem discutiu no domingo.
As duas cenas têm pouco a ver com o candidato de cada um. Têm muito a ver com o sono.
Se você tem transtorno bipolar, trata uma depressão ou convive com alguém nessa situação, talvez tenha reconhecido alguma coisa aqui. Não há nada de estranho em uma eleição mexer com o humor. Mexe com o de quase todo mundo. Mas, para algumas pessoas, o que pede atenção nestas semanas não é só o resultado. É o que o período está fazendo com as noites.
A eleição mexe com o relógio antes de mexer com o humor
Ninguém decide dormir menos em época de eleição. Acontece. O debate termina tarde, e a conversa sobre o debate termina mais tarde ainda. O grupo da família apita à meia-noite. A discussão do jantar continua rodando na cabeça depois que a luz se apaga. E há uma sensação difusa, difícil de nomear, de que algo importante está acontecendo e de que não dá para perder nada.
Não é coisa só daqui. Em 2024, 69% dos adultos americanos disseram à American Psychological Association que a eleição presidencial era uma fonte significativa de estresse. Muda o cenário; a reação do corpo se parece.
Para a maioria das pessoas, algumas noites ruins custam cansaço, irritação, um dia mais arrastado. Passada a eleição, o sono se reorganiza. Para quem tem um transtorno do humor, essas mesmas noites podem custar mais, e é por isso que merecem outro tipo de atenção.
Por que o sono pesa tanto no transtorno bipolar
O transtorno bipolar é uma condição em que o humor se organiza em períodos: fases de depressão e fases de elevação, chamadas de hipomania ou mania, em que a pessoa fica acelerada, mais enérgica, com menos crítica e menos necessidade de dormir. Entre um período e outro, muitas vezes, ela volta ao seu jeito habitual.
O sono ocupa um lugar central nessa história, e anda nos dois sentidos. Noites encurtadas podem preceder uma virada de humor. E uma virada de humor, quando começa, encurta as noites. Uma coisa alimenta a outra. Na clínica, a relação entre sono e transtorno bipolar é uma das observações mais constantes: a mudança no sono costuma estar entre os primeiros sinais, às vezes dias antes de a pessoa ou a família perceberem que algo mudou.
Na depressão, o sono também fala. O despertar no meio da madrugada sem conseguir voltar a dormir, o sono picado, ou o contrário, a vontade de não sair da cama, costumam acompanhar ou anunciar uma piora.
Por isso o sono, para quem tem um transtorno do humor, funciona como um sinal precoce. Não é o único, mas costuma estar entre os primeiros a aparecer, e é o mais fácil de observar.
Dormir pouco não é o mesmo que precisar de pouco sono
Há uma distinção que vale guardar, porque separa duas situações muito diferentes.
A primeira é a noite mal dormida comum. A pessoa dorme pouco porque ficou acordada, preocupada, lendo notícias, e no dia seguinte sente falta: está cansada, com sono, querendo deitar mais cedo. É desagradável, mas é o que se espera.
A segunda é outra coisa. A pessoa dorme quatro ou cinco horas e acorda inteira. Não sente falta. Tem energia de sobra, ideias demais, vontade de começar coisas. Às vezes nem registra que dormiu pouco; simplesmente não precisou de mais. Essa redução da necessidade de sono, quando aparece em quem tem histórico de transtorno bipolar, merece ser levada a sério e contada a quem acompanha o tratamento.
A euforia da mobilização e a irritação das discussões
Envolver-se com uma eleição não é sintoma. Militar, debater, chamar amigos para uma causa, acompanhar cada pesquisa: tudo isso faz parte da vida de muita gente, de qualquer lado, e não tem nada de patológico. Seria um erro, além de uma injustiça, ler o engajamento político de alguém como sinal de doença.
O que merece atenção não é o engajamento. É a mudança em relação à própria pessoa. Alguém que costuma acompanhar a política com interesse e, de repente, passa as noites acordado, fala mais rápido do que o habitual, assume compromissos demais, gasta fora do padrão, perde o filtro em conversas nas quais sempre foi cuidadoso. A dificuldade é que a energia de uma causa coletiva se parece muito com o começo de uma elevação do humor, e o grupo, em vez de estranhar, aplaude. A animação que em outra época chamaria atenção, numa campanha, passa por entusiasmo.
E a elevação nem sempre vem como alegria. Com frequência ela chega como irritação: impaciência, pavio curto, discussões que sobem de tom rápido demais. Uma campanha oferece pretexto de sobra para isso. A briga no grupo da família rouba uma noite de sono, a noite mal dormida deixa a irritação mais à flor da pele, e a discussão seguinte já começa de um ponto mais alto. É um ciclo que se fecha sem que ninguém perceba.
O que a família pode observar
Quem convive costuma ver primeiro. De dentro, a pessoa quase sempre tem mais dificuldade de perceber em si o que os outros enxergam. Alguns sinais merecem atenção nestas semanas:
- noites mais curtas sem cansaço no dia seguinte;
- fala mais rápida, assuntos que se atropelam, dificuldade de ser interrompido;
- muitos planos novos ao mesmo tempo, gastos ou compromissos fora do habitual;
- irritação que não combina com o jeito da pessoa;
- ou, no sentido oposto, despertar de madrugada, recolhimento, perda de interesse, dias inteiros na cama.
Nenhum desses sinais, sozinho, é diagnóstico. O que pesa é a combinação e, principalmente, a diferença em relação a como aquela pessoa costuma ser.
Um cuidado importante: discordar politicamente da família não está nessa lista, e não pode estar. O diagnóstico de alguém nunca deveria virar argumento numa discussão. Frases como “você só pensa assim porque está em crise” ferem, afastam e tornam mais difícil que a pessoa escute a preocupação verdadeira quando ela existir. Observar não é vigiar. O melhor destino do que a família percebe é a conversa com o médico que acompanha, de preferência com o conhecimento da própria pessoa.
Quando procurar o médico que acompanha
Há momentos em que não vale esperar a próxima consulta marcada. Quando o sono some por várias noites. Quando aparece aquela sensação de não precisar dormir. Quando o sofrimento passa a tomar conta do dia. Quando surgem ideias que assustam. Quando a família percebe uma mudança que não passa. Nesses casos, o contato com o médico que acompanha deve ser feito logo.
O que fazer diante dessas mudanças é uma decisão clínica, e cabe a quem conhece a história e acompanha o tratamento. O papel de quem percebe é avisar cedo. Mudanças percebidas no começo costumam ser mais simples de acompanhar do que mudanças descobertas tarde.
Vale lembrar também que o período não termina no domingo. A semana que vem depois do resultado costuma ser de emoção intensa, para quem ganhou e para quem perdeu: alívio, euforia, frustração, raiva. O sono tende a ir junto, e os sinais descritos aqui continuam valendo depois do dia 25.
Há ainda o que estas semanas mobilizam por dentro. Uma eleição toca em esperança e desesperança, em ameaça, em pertencimento, na vontade de fazer parte de algo maior. Para quem tem um transtorno do humor, essas experiências podem ganhar uma intensidade difícil de separar do próprio humor. A psicoterapia de orientação analítica oferece um lugar para pensar o que a política está carregando para cada um: o que o resultado parece decidir sobre a própria vida, de onde vem tanta raiva, o que a mobilização promete. Quando esse espaço caminha junto com o acompanhamento médico, mudanças de sono e de humor tendem a ser notadas mais cedo, porque há alguém olhando para a pessoa inteira.
Em semanas de tanto barulho, o sinal mais importante costuma ser o mais silencioso: quantas horas a pessoa dormiu, e como acordou.
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Dr. Leonardo Sodré é médico psiquiatra e psicoterapeuta em Brasília (CRM-DF 14.206 · RQE 14.761). Doutor em Psiquiatria pela UFRGS e professor na Faculdade de Medicina da UnB. Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento individual.