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Guia do Paciente

Rolar a tela atrás da próxima pesquisa parece responsabilidade. Sobre a ilusão de controle que o excesso de notícia oferece, a atenção em pedaços e o momento em que se informar vira vigiar.

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Ilustração para o artigo: Sobrecarga de informação: quando se informar vira vigiar

O café esfriou em cima da mesa. Faltavam dez minutos para sair de casa, e o polegar continuava subindo a tela: uma pesquisa nova, um trecho do debate recortado por alguém, o comentário de um desconhecido com duas mil curtidas embaixo. Nada daquilo era exatamente novidade. A pesquisa dizia quase o mesmo que a da véspera. O trecho do debate ela já tinha visto, de outro ângulo, na noite anterior. Mesmo assim, fechar o aplicativo parecia um descuido.

No elevador, abriu de novo. No sinal vermelho, também. Na reunião das dez, com a câmera desligada, a página de notícias ficou aberta na outra janela. À noite, no sofá, a série seguia na televisão, e ninguém ali saberia dizer o que tinha acontecido no último episódio, porque as duas pessoas da sala estavam olhando para o próprio celular.

Se alguém perguntasse o que ela soube de novo naquele dia, a resposta honesta seria: quase nada. Se perguntasse como ela estava, a resposta seria outra. Em guarda. Como quem não pode tirar o olho da panela no fogo.

Faltam onze dias para o segundo turno entre Flávio Bolsonaro e Lula, e essa cena se repete do mesmo jeito em casas que votam num e em casas que votam no outro. O polegar não tem partido.

Parar de ler parece descuido

Quem vive isso raramente descreve como vício ou como curiosidade. A palavra que mais aparece é responsabilidade. Parece errado não saber. Parece que, se a pessoa se distrair por algumas horas, alguma coisa importante vai acontecer sem ela, e ela vai ser a última a saber: no almoço, no grupo, no café do trabalho, alguém vai comentar algo que ela não viu.

Há um motivo para esse excesso passar despercebido por tanto tempo. Estar bem informado é uma virtude, e com razão. Ninguém se preocupa com quem lê demais sobre a eleição do próprio país; ao contrário, parece sinal de compromisso. Por isso é tão difícil notar o momento em que a leitura deixou de ser interesse e passou a ser outra coisa. O excesso vem vestido de dever cívico.

E a tela colabora. Ao contrário do jornal de papel, ela não tem última página. Não existe o momento em que a leitura termina porque o conteúdo acabou. Quem decide a hora de parar é sempre a pessoa, e sempre contra a corrente. Por isso o gesto de fechar o aplicativo costuma vir com uma pontada de inquietação, quase de culpa, como se alguém estivesse abandonando um posto. Vale reparar nessa pontada. Ela diz mais sobre o que está acontecendo do que qualquer manchete.

Mais notícia, menos entendimento

A promessa implícita é que, quanto mais a pessoa lê, mais entende, e quanto mais entende, mais segura fica. Na prática, costuma acontecer o contrário.

Informação precisa de tempo para virar entendimento. É preciso ler, parar, relacionar com o que já se sabia, deixar assentar. O fluxo contínuo elimina justamente essa pausa. O mesmo fato chega em quinze versões, cada uma com um título mais alarmado que o anterior. Uma manchete desmente a outra antes do almoço. O trecho de vídeo vem sem o que veio antes e sem o que veio depois. No fim do dia, a pessoa viu muita coisa e não saberia explicar, com calma, o que de fato aconteceu.

Fica, no entanto, uma impressão de domínio. Ter visto tudo dá a sensação de estar por dentro, de segurar as rédeas, de não ser pego desprevenido. Essa é a ilusão de controle própria do excesso de informação: confundir volume com compreensão, e compreensão com algum poder sobre o que vai acontecer. Ler sobre uma eleição dá a sensação de agir sobre ela, e essa sensação é parte do que prende. Mas acompanhar, por mais intensamente que seja, não muda o que vai sair das urnas.

O que costumo ver é que a pessoa pressente esse limite e, em vez de se deter nele, lê mais. Isso acontece com quem torce por um lado e com quem torce pelo outro, na mesma intensidade e com os mesmos gestos.

Uma multidão que cabe no bolso

Há um detalhe que pesa mais do que parece: quase nunca se lê a notícia sozinho. Lê-se a notícia e, logo abaixo, a reação de centenas de pessoas a ela. Raiva, deboche, euforia, medo. Antes de terminar de entender o que aconteceu, a pessoa já sabe como deveria se sentir sobre aquilo.

Freud se ocupou desse efeito em 1921, em Psicologia das massas e análise do eu, quando tentou entender o que muda em alguém que está no meio de uma multidão. Ele partia de um fato que considerava fundamental: dentro da massa, as emoções de cada um se intensificam muito e a capacidade intelectual cai de forma marcada, as duas coisas na direção de ficar parecido com os outros ao redor. A pessoa se percebe mais inflamada, e menos ela mesma, do que estaria numa conversa a dois.

Freud não conheceu o celular, mas a seção de comentários funciona como uma multidão portátil. A pessoa está deitada na própria cama e, ao mesmo tempo, no meio de uma praça lotada, gritando com os outros. Não é de estranhar que levante mais irritada do que deitou, sem que nenhum fato novo tenha acontecido na vida dela.

A atenção em pedaços e o corpo que não desliga

O custo mais visível está na atenção. Quem passa o dia voltando à tela percebe que ficou difícil ler um livro, acompanhar um filme, ouvir alguém contar uma história até o fim. Não porque tenha perdido a capacidade, mas porque a atenção passou a ser interrompida o tempo todo, e uma atenção interrompida o tempo todo começa a se antecipar à interrupção. A mão procura o celular antes de o pensamento terminar.

O custo menos visível está no corpo. Cada manchete alarmante é recebida, em alguma medida, como se fosse um acontecimento dentro da sala. A respiração fica mais curta, a mandíbula trava, o estômago se contrai quando a tela acende com uma notificação. Uma vez, isso não é nada. Dezenas de vezes por dia, durante semanas, o corpo passa a funcionar como se estivesse de plantão permanente. É comum a pessoa notar que está cansada sem ter feito esforço físico nenhum.

Esse cansaço tem um traço curioso: o descanso habitual não dá conta dele, porque o descanso também acontece com o celular na mão.

Quando se informar virou vigiar

Vistos de fora, informar-se e vigiar parecem a mesma atividade. Por dentro, são bem diferentes.

A informação tem começo, meio e fim. Serve para alguma coisa: saber onde votar, entender uma proposta, conversar com mais elementos. Depois de se informar, a pessoa sabe algo que não sabia e segue com o dia. A vigilância não tem fim. Não serve para decidir nada; serve para acalmar, e não acalma. A pessoa lê o que já sabe, termina pior do que começou e volta mesmo assim.

O que muda quando alguém percebe essa diferença não é, em primeiro lugar, o tempo de tela. É a pergunta. Em vez de “o que aconteceu agora?”, começa a aparecer outra, mais incômoda e mais útil: “o que eu estou tentando não sentir quando abro isso de novo?”.

Às vezes a resposta é o medo do resultado. Às vezes é outra coisa, que tem pouco a ver com política. O fluxo de notícias tem uma qualidade que poucas coisas têm: ocupa a cabeça por inteiro, sem deixar espaço para mais nada. Para quem está atravessando um luto, um casamento difícil ou uma insatisfação com o trabalho que ainda não ganhou nome, esse barulho pode funcionar como um alívio disfarçado. Enquanto a tela fala, os próprios pensamentos ficam quietos. A eleição vira, sem que a pessoa perceba, o lugar mais confortável para estar.

Não vou propor aqui um programa para largar o celular. Desconfio dessas receitas nesse terreno, porque elas tratam o gesto e deixam intacto aquilo que o gesto está protegendo.

Quando vale procurar ajuda

Para muita gente, essa vigília perde força depois do dia 25, com mais ou menos ressaca. Mas há situações em que vale olhar com mais cuidado.

Quando o mesmo padrão já apareceu antes com outros assuntos, como a doença de alguém da família pesquisada noite adentro ou o noticiário de uma tragédia que não se conseguia parar de acompanhar, e a eleição foi só o assunto da vez. Quando o sono some por várias noites. Quando a irritação acumulada começa a contaminar a casa, o trabalho, as conversas que nada têm a ver com política. Quando o sofrimento passa a tomar conta do dia, e a pessoa percebe que não consegue mais estar inteira em lugar nenhum.

Nesses casos, uma avaliação psiquiátrica cuidadosa ajuda a separar o que é efeito de um período turbulento do que é um quadro que já vinha se instalando e merece tratamento próprio. E uma psicoterapia de orientação analítica oferece algo que nenhuma regra de uso do celular oferece: um lugar para pensar, sem pressa e sem ninguém cobrando conclusões, o que esse excesso anda encobrindo. O que a tela cheia ajuda a não ouvir. O que apareceria no silêncio, se ele fosse possível.

A eleição vai acontecer no dia 25 com ou sem a tela aberta. O que talvez mereça atenção é o silêncio que ela vem ocupando.

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Dr. Leonardo Sodré é médico psiquiatra e psicoterapeuta em Brasília (CRM-DF 14.206 · RQE 14.761). Doutor em Psiquiatria pela UFRGS e professor na Faculdade de Medicina da UnB. Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento individual.