O almoço que vira tribunal, o tio e a prima que já não se olham. O que Freud ajuda a entender sobre por que a política, entre os mais próximos, fere tanto.

O assunto entrou pela porta lateral, como quase sempre entra. Alguém comentou um vídeo que tinha circulado no grupo durante a semana, outra pessoa riu no momento errado, e em menos de um minuto o almoço de domingo mudou de temperatura. O tio largou os talheres. A prima, do outro lado da mesa, respondeu antes que ele terminasse a frase. A dona da casa tentou o recurso de sempre, perguntou quem queria mais arroz, e ninguém respondeu.
Não durou muito. Ninguém derrubou cadeira, ninguém saiu batendo porta. Mas a sobremesa foi comida em silêncio, as despedidas foram mais curtas do que de costume, e no carro, na volta, a discussão continuou do jeito que continua em tantos carros: com quem já não estava lá. O que deveria ter sido dito. A frase que ficou atravessada. O tom, mais do que o conteúdo.
E, por baixo de tudo, uma pergunta que quase ninguém faz em voz alta. Como foi que eu cheguei a falar daquele jeito com alguém que conheço desde que me conheço por gente?
A duas semanas do segundo turno entre Flávio Bolsonaro e Lula, essa cena se repete em muitas casas, com o elenco trocado: pai e filha, dois irmãos, o casal que até pouco tempo atrás achava que pensava igual. Talvez você tenha reconhecido a sua mesa nessa descrição, de um lado ou do outro dela. O que costumo ouvir no consultório, quando política e briga de família se misturam, raramente é sobre a eleição. É sobre por que doeu tanto. E por que doeu mais justamente ali, entre os seus.
A briga quase nunca é sobre o que parece
Se fosse uma discussão de ideias, ela terminaria de outro jeito. Alguém traria um argumento, o outro traria um fato, e em algum momento um dos dois diria “nisso você tem razão”. Quase nunca é o que acontece. Ninguém muda de voto num almoço de domingo, e no fundo todos à mesa sabem disso antes de a conversa começar.
O que está em jogo é outra coisa. Quando o tio defende o candidato dele com a voz alterada, ou quando a prima rebate com uma ironia que não usaria em nenhum outro assunto, nenhum dos dois está tentando convencer. Estão defendendo um lugar. E a sensação, dos dois lados da mesa, é curiosamente a mesma: se eu deixar passar, alguma coisa minha vai ser apagada.
Muita gente percebeu isso e escolheu o caminho que parecia mais seguro. Em julho de 2022, numa pesquisa do Datafolha, 49% dos eleitores disseram ter deixado de conversar sobre política com amigos e familiares para evitar discussões. Quase metade. O silêncio preserva o almoço, mas cobra em outro lugar. O assunto que não se fala não desaparece da mesa. Muda de forma: vira piada atravessada, olhar trocado, cuidado excessivo com cada palavra, a sensação de estar sempre a uma frase do desastre.
Por que fere mais quando vem de perto
Existe uma expectativa intuitiva de que a família seja o lugar mais fácil para discordar. Há décadas de convivência, afeto acumulado, a certeza de que ninguém vai embora por causa de um voto. O que se observa costuma ser o contrário. A mesma opinião que se escuta com relativa calma de um colega de trabalho, dita pelo irmão, vira afronta.
Freud deu a isso o nome de narcisismo das pequenas diferenças e voltou à ideia em O mal-estar na civilização, de 1930. A observação era que a hostilidade costuma ser maior entre os que se parecem do que entre os que são inteiramente diferentes. Os exemplos que ele dava eram de povos vizinhos, aparentados em quase tudo, que viviam se provocando e se ridicularizando. Freud admitia que o nome explicava pouco, mas apontou uma função: essa hostilidade ajuda a manter coeso o grupo de dentro, que se reconhece por oposição ao vizinho.
Levado para a mesa de almoço, isso esclarece bastante. Quem diverge de nós na família não é um estranho. Cresceu na mesma casa, ouviu as mesmas histórias, aprendeu as mesmas palavras. Por isso a diferença dele incomoda de um jeito particular: ela mostra que da mesma origem pode sair outra coisa. Que aquilo que parecia óbvio, e que a gente imaginava ter recebido junto com o sobrenome, não era tão óbvio assim. A divergência de quem está perto ameaça uma ideia que nem sabíamos que tínhamos: a de que, no fundo, somos iguais.
Votar virou pertencer
Há um segundo mecanismo, e ele ajuda a entender por que a crítica a um candidato é sentida como ofensa pessoal.
Em Psicologia das massas e análise do eu, de 1921, Freud tentou entender o que muda numa pessoa quando ela passa a fazer parte de um grupo. A resposta dele passa por uma palavra: identificação. Os membros se ligam a um líder, ou a uma ideia que ocupa esse lugar, e o colocam na posição daquilo que gostariam de ser. E, por estarem ligados à mesma figura, passam a se reconhecer uns nos outros. É esse laço duplo, com o líder e entre os pares, que dá ao grupo a sua força.
Freud viu também o preço disso. Dentro do grupo, a crítica individual afrouxa. O que a pessoa examinaria com cuidado se estivesse sozinha passa sem exame quando vem de dentro, e o que vem de fora é recusado antes de ser ouvido. Ele notava, a propósito dos grupos que estudou, que eles costumam ser generosos com quem pertence e duros com quem fica do lado de fora.
Nada disso é próprio de um lado. É o modo como os grupos humanos funcionam, e atravessa todo mundo: o tio e a prima, quem lê este texto e quem o escreveu. Numa eleição polarizada, o efeito é previsível. Votar deixa de ser uma escolha entre propostas e passa a ser uma forma de dizer quem eu sou e com quem estou. Criticar o candidato vira criticar quem se identifica com ele. E discordar, dentro de casa, começa a soar como traição.
Duas lealdades na mesma mesa
A família também é um grupo, e muito mais antigo do que qualquer eleição. Tem suas identificações, seus ideais, suas regras não ditas sobre o que se pode e o que não se pode dizer em voz alta.
O que torna o almoço tão difícil em época de campanha é que, ali, as duas pertenças se encontram e passam a disputar a mesma pessoa. Se deixo passar o comentário do meu pai, sinto que traí aquilo em que acredito. Se respondo à altura, sinto que traí a minha família. Não há posição confortável, e é por isso que tanta gente sai desses encontros com a sensação de ter perdido de qualquer jeito, tenha falado ou ficado quieta.
Há ainda um detalhe que costuma passar despercebido. Uma família tem papéis distribuídos há muito tempo: quem sempre apaziguou, quem sempre provocou, quem sempre se sentiu menos ouvido. A política raramente inventa esses papéis. Encontra-os prontos e se acomoda neles. Não é raro que a pessoa se surpreenda com a intensidade da própria raiva e só depois perceba que ela não era toda sobre o voto.
O que se perde quando o outro vira só o voto dele
O efeito mais silencioso dessa dinâmica não é a briga. É o encolhimento do outro. Ao longo da campanha, o irmão vai sendo reduzido à posição que defende. Tudo o que ele diz passa por esse filtro, e qualquer gesto parece confirmar o que já se sabia sobre “esse tipo de gente”. O irmão que dividiu o quarto com você por quinze anos, que apareceu no hospital quando seu filho nasceu, que sabe de cor a receita da avó, some atrás de um voto.
E isso costuma acontecer dos dois lados ao mesmo tempo. Cada um olha para o outro e vê uma caricatura, convencido de que é o outro quem está fazendo isso.
Perceber o mecanismo não resolve a divergência, nem deveria. Ninguém precisa abrir mão do que pensa para continuar sentado à mesma mesa. Mas há uma distância grande entre discordar de alguém e deixar que a discordância apague o resto da pessoa. A primeira coisa faz parte de qualquer família viva. A segunda é a que deixa marcas que duram mais do que a eleição.
Quando a briga ocupa mais espaço do que a eleição
Para a maioria das pessoas, essa tensão vai baixar depois do dia 25, ainda que devagar. Mas há situações em que ela diz respeito a algo mais do que a campanha, e vale olhar com atenção.
Quando a discussão continua rodando na cabeça por dias, de madrugada, com réplicas ensaiadas. Quando a raiva de um familiar específico parece desproporcional até para quem a sente. Quando o afastamento já tomou relações importantes e a pessoa não sabe mais por onde voltar. Quando o sono, o trabalho ou a paciência com os de casa começam a pagar a conta. Nesses casos, a eleição pode ter sido só a ocasião.
É aí que a psicoterapia de orientação analítica tem algo próprio a oferecer. Não um treino para discutir melhor, nem um método para evitar o assunto, mas um lugar para pensar o que aquela briga está carregando. Por que aquela frase, dita por aquela pessoa, atingiu tão fundo. O que o candidato representa para quem o defende, e o que o voto do outro parece ameaçar. Que papel antigo foi convocado à mesa sem que ninguém percebesse. São perguntas sem resposta rápida, e não precisam ter. Mas costumam mudar o jeito como a pessoa chega ao almoço do domingo seguinte.
A eleição tem data para acabar. A família continua depois dela, com tudo o que tiver sido dito à mesa.
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Dr. Leonardo Sodré é médico psiquiatra e psicoterapeuta em Brasília (CRM-DF 14.206 · RQE 14.761). Doutor em Psiquiatria pela UFRGS e professor na Faculdade de Medicina da UnB. Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento individual.