O celular na mão às duas da manhã, a pesquisa conferida mais uma vez. Sobre por que a espera do segundo turno mexe tanto e quando a ansiedade já vinha de antes.

São duas e dez da manhã e o celular está na mão de novo. Nenhum barulho, nenhum alerta acordou ninguém. Os olhos simplesmente abriram, e antes que desse tempo de decidir qualquer coisa o polegar já estava no aplicativo de notícias, depois na pesquisa mais recente, depois no grupo em que alguém comentou um número às onze da noite. Nada mudou desde a última olhada, às onze e meia. Mesmo assim, ler de novo parece necessário.
Ao lado, alguém dorme. O quarto está escuro, a tela ilumina o rosto, e o coração bate um pouco mais rápido do que deveria bater em quem está deitado. A cabeça começa a montar cenas: como vai ser a segunda-feira depois do resultado, o que vai ser dito no almoço de domingo, o que muda no trabalho, no país, na vida dos filhos. Cada cena puxa outra. Quando o sono volta, se volta, já está perto de clarear.
De manhã fica uma espécie de ressaca sem bebida. E, junto com ela, uma pequena vergonha. Afinal, é uma eleição. Gente adulta, com contas a pagar e gente para cuidar, perdendo o sono por uma coisa que nem depende dela.
Se essa cena tem algo de familiar, vale dizer logo: ela é bem mais comum do que parece, e não diz nada de ruim sobre quem a vive. Diz alguma coisa sobre o momento, e sobre o jeito como a mente lida com o que ainda não sabe.
Três semanas é muito tempo para não saber
O primeiro turno, no dia 4, terminou apertado. O segundo, entre Flávio Bolsonaro e Lula, é no domingo, 25 de outubro. Entre uma data e outra ficam três semanas em que a pergunta que mais ocupa a cabeça de muita gente está aberta e não pode ser respondida.
A mente lida mal com perguntas abertas. Curiosamente, lida pior com elas do que com muitas respostas ruins. Uma notícia difícil, quando chega, dá ao menos um chão: a pessoa sofre, se reorganiza, começa a pensar no que vem depois. A incerteza não oferece chão nenhum. Ela mantém o organismo num estado de prontidão sem objeto, como quem fica de pé na plataforma esperando um trem que não tem horário.
E não é uma incerteza silenciosa. São pesquisas quase diárias, cada uma com uma pequena variação que parece enorme, comentários, trechos de vídeo, previsões que se desmentem no intervalo de uma tarde. Cada informação nova reabre a pergunta em vez de fechá-la. Por isso a espera cansa de um jeito que o próprio resultado, qualquer que seja, provavelmente não vai cansar.
Esse desgaste não é uma particularidade brasileira. Na pesquisa Stress in America de 2024, a American Psychological Association encontrou 69% dos adultos americanos dizendo que a eleição presidencial era uma fonte significativa de estresse. Em 2016, eram 52%. Eleições disputadas pesam, em qualquer lugar, sobre quem as acompanha de perto.
A ansiedade mora no que ainda não aconteceu
O que se passa às duas da manhã tem nome: ansiedade antecipatória. É sofrer agora, por inteiro, algo que talvez aconteça depois. A cabeça ensaia o futuro, e o corpo reage ao ensaio como se fosse a estreia. O coração acelera diante de uma cena imaginada, os ombros endurecem por causa de uma conversa que ainda não houve, o estômago fecha por um resultado que ninguém conhece.
A antecipação raramente ensaia uma versão só. Ela vai e volta. Se der um resultado, imagina uma coisa; se der o outro, imagina outra. E as duas acabam sendo vividas um pouco, de modo que ao longo de três semanas a pessoa atravessa os dois desfechos, embora só um deles vá de fato acontecer.
Há algo de protetor nessa operação, e é por isso que ela insiste tanto. Antecipar dá a impressão de preparo: se eu já pensei no pior, ele não vai me pegar desprevenido. Só que a preparação nunca termina, porque sempre falta um cenário a considerar. A ansiedade promete que, pensando o bastante, a pessoa vai estar pronta. Esse momento de estar pronta não chega.
Conferir a notícia como quem confere a porta trancada
Quase todo mundo já levantou da cama para ver se tinha trancado a porta, sabendo que tinha. O alívio dura pouco, e às vezes a pessoa se levanta outra vez. Nestas semanas, o celular faz o papel da porta.
Conferir a pesquisa, o portal, o grupo, dá uma sensação breve de controle. Por alguns segundos, parece que estar informado é estar protegido. Mas a informação nova não altera o que está em jogo, a sensação se desfaz depressa, e isso pede outra conferida. O ciclo se alimenta sozinho, e o dia termina com mais cansaço e não com mais calma.
Por baixo disso há uma verdade difícil de engolir: o resultado não depende de quem está lendo. Cada pessoa tem um voto entre milhões, e o domingo vai chegar com o desfecho que tiver de chegar. Reconhecer isso não é indiferença. É admitir o limite do que se alcança, e essa admissão costuma doer mais do que a própria ansiedade, que pelo menos dá a impressão de que se está fazendo alguma coisa.
O que parece estar em jogo no domingo
Seria simples dizer que é só política, mas para muita gente não é. Uma eleição presidencial mexe com camadas que ficam bem abaixo do voto: a sensação de pertencer ao país em que se vive, a ideia que se faz do futuro dos filhos, o medo de acordar num lugar que já não se reconhece. E também com algo mais miúdo e mais próximo, que é a perspectiva de ficar do lado que perdeu diante das pessoas com quem se convive todo dia.
Esse medo atravessa todo mundo, de um lado e de outro. Para uns, o país irreconhecível tem uma forma; para outros, tem a forma oposta. O conteúdo muda, o desenho do medo é o mesmo. Quem perde o sono temendo um resultado tem, em algum lugar, um vizinho ou um primo perdendo o sono porque teme o outro. Lembrar disso não resolve nada, mas devolve alguma proporção quando a própria ansiedade parece a única razoável.
O pediatra e psicanalista inglês Donald Winnicott, nos textos reunidos em O ambiente e os processos de maturação (1965), deu o nome de holding, sustentação, a uma experiência muito anterior a qualquer eleição: a de estar dentro de um ambiente que segura, que continua existindo de um dia para o outro sem que seja preciso vigiá-lo. A ideia nasceu para descrever o bebê e quem cuida dele, mas ilumina bem o adulto. A gente também precisa de ambientes que se sustentem sem a nossa vigilância. Boa parte do que se sente nestas semanas é a ameaça, real ou imaginada, de que esse ambiente mude de forma. E quando o chão parece incerto, a mente tenta segurá-lo sozinha. Às duas da manhã, com o celular na mão.
Quando já não é só a eleição
Uma parte da ansiedade destas semanas é proporcional ao momento e tende a ceder depois do dia 25, seja qual for o resultado. A eleição termina, o assunto perde a urgência, o sono volta ao seu ritmo. Mas há sinais de que o que está acontecendo é maior do que a eleição, e eles merecem atenção.
O primeiro é o sono que some por várias noites, e não apenas fica mais leve. O segundo é a preocupação que se espalha: começa na política e, quando se vê, está no trabalho, na saúde, nos filhos, sem trégua. O terceiro é o corpo: aperto no peito, falta de ar, episódios de medo intenso que chegam de repente e parecem não ter relação com o que se estava pensando. E há um quarto, talvez o mais importante, que é perceber que esse estado não começou agora. Que a eleição só deu um assunto a uma inquietação que já estava ali, às vezes havia anos, e que antes se agarrava a outras coisas.
Uma eleição é um bom revelador. Ela não costuma criar um quadro de ansiedade do nada, mas pode deixar visível um que vinha sendo administrado em silêncio. Quando o sofrimento passa a tomar conta do dia, ou quando surgem ideias que assustam, já não faz sentido esperar o domingo passar. Vale ser avaliado por alguém que olhe para o quadro inteiro, e não só para o pedaço que a eleição iluminou.
O que a ansiedade está carregando
Há situações em que aliviar o sintoma é a primeira necessidade, e só uma avaliação psiquiátrica cuidadosa pode dizer como fazer isso no caso de cada pessoa. Mas tratar a ansiedade apenas como um ruído a ser desligado deixa de fora uma parte importante dela.
A ansiedade também fala. Ela costuma carregar coisas que não cabem na política e que a política, por um tempo, ajudou a esconder: o medo de perder um lugar, a dificuldade de suportar não saber, uma antiga impressão de que o mundo só fica de pé se alguém estiver de vigia. No consultório, o que costumo ver é que a pergunta “como faço isso passar?” logo abre espaço para outras. De onde vem a exigência de controlar o que não se controla. Por que ela apareceu com tanta força justamente agora. O que ficaria exposto se a vigília parasse.
Uma psicoterapia de orientação analítica é um lugar para pensar essas perguntas com tempo, sem pressa de concluir, diante de alguém que não está torcendo por nenhum resultado. Não para convencer a ansiedade de que ela exagera, mas para entender o que ela vem tentando proteger.
O domingo vai chegar, e com ele um resultado. A ansiedade pode ir embora junto, ou pode ficar e procurar outro assunto. Vale prestar atenção em qual das duas coisas aconteceu.
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Dr. Leonardo Sodré é médico psiquiatra e psicoterapeuta em Brasília (CRM-DF 14.206 · RQE 14.761). Doutor em Psiquiatria pela UFRGS e professor na Faculdade de Medicina da UnB. Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento individual.