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Condições e Diagnósticos

Perder o fôlego para ler ou sustentar uma tarefa longa tem mais de uma explicação possível. O que o hábito de consumo explica — e o que ele pode estar encobrindo.

7 min de leitura
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Ilustração para o artigo: Concentração encurtada — quando não é só o celular

Ele percebeu num domingo à tarde.

O livro estava separado havia semanas. Sentou na poltrona, leu duas páginas — e na terceira já estava com o telefone na mão, sem ter registrado o movimento de buscá-lo no bolso.

Não foi a primeira vez. Foi a primeira vez que ele reparou.

Na segunda-feira, o mesmo desenho aparece em outro lugar. O parecer que antes saía numa tacada agora ocupa a manhã inteira, picado em quinze pedaços. Abre o arquivo, olha a notificação, responde, volta — e precisa reler o parágrafo para lembrar onde estava. Entrega no prazo, como sempre entregou. Só que o custo mudou.

À noite, a explicação que aparece é sempre a mesma: é o celular.

A explicação tem uma parte de verdade

E ela ficou um pouco mais bem documentada.

Pesquisadores compararam, com ressonância funcional, o que acontece na hora de lembrar um conteúdo aprendido de duas formas diferentes: por vídeos curtos e fragmentados, ou por vídeos longos e contínuos. Quem aprendeu pelo formato picado lembrou pior — e, na hora de recuperar a informação, mostrou menos coordenação entre regiões cerebrais envolvidas em juntar as partes numa cena coerente, em sustentar o esforço voluntário de busca e em dar sentido ao que foi visto.

A leitura que os autores oferecem é que a narrativa contínua ajuda a formar um traço de memória mais inteiro, mais fácil de reconstruir depois. O conteúdo fragmentado prende a atenção com facilidade — ele foi desenhado para isso — mas prende pelo caminho mais barato, o do estímulo que salta aos olhos, e não pelo caminho que exige intenção.

Vale dizer o que o estudo não mostra, porque isso importa. Ele não prova que o hábito causa dano permanente, não estabelece uma dose de exposição a partir da qual algo acontece, e não diz se o efeito se desfaz quando o hábito muda. Os próprios autores são explícitos quanto a isso. O que a pesquisa faz é dar contorno a uma queixa que já chegava ao consultório sem nome: a sensação de que a cabeça perdeu fôlego para percursos longos.

O problema é quando a explicação vira a única

Atribuir tudo ao celular é confortável por um motivo: é a leitura que não exige nada de você além de disciplina. Se o problema é hábito, a solução é força de vontade — e um profissional que construiu a vida em cima de disciplina tende a achar essa conta justa.

Só que “perdi a concentração” é uma das queixas mais inespecíficas que existem em psiquiatria. Ela é o ponto de chegada de caminhos muito diferentes, e alguns deles não melhoram com disciplina nenhuma.

Uma depressão pode se apresentar primeiro pela cabeça, não pelo humor. A pessoa não se sente triste, e por isso descarta a hipótese na hora. O que ela sente é lentidão, dificuldade de decidir, a leitura que não entra. Escrevi sobre esse formato em depressão não é tristeza: quando o corpo para primeiro.

A ansiedade ocupa espaço de processamento. Parte da atenção fica alocada em monitorar ameaça — a mensagem que não chegou, o prazo, a conversa mal resolvida — e o que sobra para a tarefa é menos do que costumava ser.

O sono explica mais do que se imagina. Noites picadas, apneia não diagnosticada, o hábito de terminar o dia com a tela no escuro. Atenção é a primeira função que o sono ruim derruba.

O álcool social entra nessa conta com frequência, mesmo em quantidades que ninguém consideraria problema.

E existe o TDAH que sempre esteve lá. Não apareceu agora: ficou compensado durante anos por inteligência, por hiperfoco em coisas que interessavam, por uma estrutura externa que segurava a rotina. Quando a demanda sobe — promoção, sociedade, filho pequeno, carga que dobrou —, a compensação não dá mais conta, e o sintoma aparece pela primeira vez aos trinta e tantos, quarenta.

O que me preocupa nesse cenário

O termo “brain rot” circula bem. É bom de dizer, explica rápido, e tem a vantagem de não acusar ninguém de estar doente — só de estar viciado em rolagem, como todo mundo.

O risco é o caminho que costuma vir depois. A pessoa se reconhece na descrição, procura na internet, chega em TDAH, encontra uma lista de sintomas que bate com o que sente — e a próxima consulta já não é uma pergunta, é um pedido.

Existe tratamento medicamentoso para TDAH, e ele funciona bem quando o diagnóstico está certo. O problema é o que acontece quando não está. Um psicoestimulante iniciado sobre uma ansiedade não tratada, sobre um quadro do espectro bipolar não reconhecido, sobre um sono destruído ou sobre uma depressão que se apresentou cognitivamente pode piorar exatamente aquilo que se queria resolver — e, em alguns desses cenários, piorar de um jeito que não é pequeno. Tratei disso em TDAH ou não? Os diagnósticos diferenciais.

Nada disso significa que a hipótese seja errada. Significa que ela é uma entre várias, e que a ordem importa: primeiro se separa o que é, depois se decide o que fazer.

Talvez nada disso descreva você

E não haveria problema nenhum nisso. Muita gente lê até aqui e conclui, com razão, que o próprio caso é mais simples do que parecia — que é só hábito mesmo, e que reduzir a exposição resolve. Costuma resolver.

Mas talvez algo tenha soado familiar. Ou talvez você tenha pensado em alguém — um sócio, um colega, alguém em casa — que anda dizendo as mesmas frases.

Se for o caso, a pergunta que vale fazer não é “quanto tempo eu passo no celular”. É outra, e ela é menos confortável:

Isso começou junto com o hábito, ou o hábito foi ficando mais fácil porque alguma coisa já tinha mudado?

Quem começou a rolar mais depois que o sono piorou, depois que o trabalho ficou insuportável, depois que parou de sentir vontade de coisas que antes davam prazer — essa pessoa não está diante de um problema de disciplina. A tela virou o lugar onde ainda é possível ficar, e não a causa de não conseguir ficar em outro lugar.

Separar as duas coisas não se faz sozinho, relendo listas de sintomas. Se faz olhando a história inteira com calma, com alguém que já viu essa queixa chegar pelos dois caminhos.

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Dr. Leonardo Sodré é médico psiquiatra e psicoterapeuta em Brasília (CRM-DF 14.206 · RQE 14.761). Doutor em Psiquiatria pela UFRGS e professor na Faculdade de Medicina da UnB. Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento individual.