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Condições e Diagnósticos
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Ilustração para o artigo sobre depressão rotulada como refratária e o primeiro passo do tratamento

“Já tentei de tudo. Nada funciona.”

É a frase que mais ouço de quem chega ao consultório depois de anos assim. Vem acompanhada de uma lista — quatro, cinco, seis nomes de remédios, alguns lembrados de cabeça, outros num papel amassado — e de uma conclusão que a pessoa já tomou como definitiva antes de sentar: eu sou um caso perdido.

Muitas dessas pessoas chegam com uma segunda coisa na cabeça. Ouviram falar de cetamina, de estimulação magnética transcraniana, de eletroconvulsoterapia. Leram que são revolucionárias. Às vezes alguém já ofereceu.

Na minha experiência, a grande maioria dessas pessoas não é refratária. Elas nunca chegaram a completar, bem conduzido, o primeiro passo do tratamento indicado para elas.

Talvez isso descreva alguma coisa da sua história. Ou talvez você esteja pesquisando essas intervenções agora, para você ou para alguém. De um jeito ou de outro, é sobre essa distância que eu queria conversar: entre ter tentado muito e ter sido tratado.

Duas palavras que parecem iguais e não são

Depressão refratária — o termo mais atual é depressão de difícil tratamento — descreve o quadro que não responde depois de tentativas adequadas e bem conduzidas. A palavra-chave aqui é adequadas. Refratariedade é um diagnóstico que só se pode dar depois de o tratamento ter sido feito direito, e não ter funcionado.

O que vejo com muito mais frequência é outra coisa, que vale chamar por outro nome: pseudorrefratariedade. É a pessoa rotulada como resistente que, olhando com calma para a história, nunca teve um tratamento adequado para chamar de fracasso. Tentou muitos remédios, sim — mas nenhum como deveria.

A diferença entre os dois cenários não é sutil. Um leva a intervenções cada vez mais complexas e caras. O outro se resolve, com frequência, refazendo o começo.

Onde as coisas costumam descarrilar

Quando digo que o tratamento não foi adequado, não é crítica a quem tentou antes — nem ao paciente, nem ao colega. É uma constatação técnica sobre o que costuma faltar.

O diagnóstico precisa estar certo antes de a primeira receita ser escrita. Um exemplo que muda tudo: uma parcela relevante das depressões “que não respondem” são, na verdade, quadros do espectro bipolar — e aí o caminho é outro, e insistir no primeiro pode piorar. Rastrear isso antes de prescrever não é detalhe; é o alicerce.

A dose precisa chegar ao patamar terapêutico, e não parar na primeira que trouxe algum efeito colateral.

O tempo precisa ser suficiente. Melhora de verdade costuma exigir semanas. Tratamento abandonado ou trocado cedo demais não é tratamento que falhou — é tratamento que não aconteceu.

E nada disso significa alguma coisa se não houver medida. Acompanhar a resposta com uma escala, e não só pela impressão do dia, é o que separa condução de adivinhação.

Some qualquer um desses pontos e você tem uma “tentativa” que, no papel, engrossa a lista de fracassos, mas que clinicamente nunca foi um teste justo. Multiplique por cinco, seis remédios ao longo dos anos, e nasce um “já tentei de tudo” que é real na sua experiência e falso na técnica.

Existe um mapa — e ele não é adivinhação

Uma das coisas que mais tranquiliza alguém que se acha um caso perdido é descobrir que o tratamento da depressão não é tentativa e erro no escuro.

Existe um percurso estruturado, baseado em evidência e organizado por diretrizes internacionais — trabalho com base na diretriz canadense do CANMAT, adaptada a cada pessoa. Esse percurso tem uma ordem: avaliação cuidadosa antes de prescrever, uma primeira linha bem conduzida e medida, uma reavaliação formal em prazo definido e, só então, os passos seguintes, quando de fato indicados.

Recentemente montei o algoritmo completo desse percurso para mostrar a uma paciente exatamente onde ela estava. Ela havia chegado convicta de ser refratária, perguntando sobre cetamina. No fluxograma, dava para ver a olho nu: ela mal tinha saído da primeira etapa.

Não faltava um tratamento mais potente. Faltava concluir o que já havia sido começado — e nunca terminado.

Não reproduzo aqui doses nem nomes de medicamentos de propósito: isso é decisão clínica individual, feita na consulta, e não conteúdo de blog. O que importa para quem lê é a forma do caminho. E a forma diz uma coisa incômoda: a maior parte das pessoas que “tentaram tudo” está, na verdade, parada perto do início.

Cetamina, ECT e EMT: o problema não é o que são

Aqui preciso ser muito preciso, porque é fácil ler o que vem a seguir como se eu estivesse torcendo o nariz para essas ferramentas. Não estou.

A cetamina, a eletroconvulsoterapia e a estimulação magnética transcraniana são recursos legítimos, com evidência sólida, e nos casos certos fazem uma diferença que nenhum comprimido faz. A depressão não é um fenômeno apenas monoaminérgico — é também glutamatérgico e neuroplástico, e essas intervenções acessam mecanismos que os antidepressivos convencionais não acessam. Um colega anestesista que trabalha com cetamina há anos me comentou, com razão, que ainda falta conhecimento e coragem para indicá-la a quem realmente precisa. Concordo com ele.

O problema não é o que essas intervenções são. É como elas chegam até você.

Elas costumam ser apresentadas como a última esperança — e, com frequência, como a única. Isso acontece por caminhos diferentes. Às vezes é um profissional de boa-fé, de fora da psiquiatria, que ouve “os remédios não funcionaram” e conclui, de forma compreensível mas equivocada, que o caso esgotou as opções convencionais. Às vezes é a própria pessoa que pesquisa, encontra promessas entusiasmadas na internet e chega pedindo pelo nome.

Nenhuma dessas intervenções é a única esperança. Todas têm limitações, custos e indicações precisas. E nenhuma delas foi desenhada para substituir uma etapa que nunca foi feita.

O ponto nunca foi se funcionam. É onde entram no percurso. Oferecer a intervenção de linha avançada a quem ainda não fez a linha básica não é ousadia terapêutica — é pular uma etapa que muitas vezes teria resolvido, a um custo humano e financeiro que não precisava existir.

Por que isso é, no fundo, uma boa notícia

Se você se reconheceu neste texto — se carrega o rótulo de refratário e a sensação de já ter esgotado tudo —, o que eu tenho a dizer é menos sombrio do que anos de tentativas frustradas fizeram você acreditar.

“Refratário” é, numa quantidade enorme de casos, um rótulo reversível. Não porque exista uma cura mágica ou uma promessa fácil — não existe, e quem promete isso está mentindo. Mas porque, quando a avaliação recomeça do zero e o primeiro passo é enfim conduzido como deve, uma parcela grande das pessoas que “não respondiam a nada” começa a responder. Muitas vezes antes de qualquer intervenção cara ou invasiva.

Isso não vale para todo mundo. A refratariedade verdadeira existe, e quem de fato está nela merece exatamente esses recursos avançados, no momento certo do percurso. Mas ela só pode ser afirmada depois do percurso, não antes.

E é por isso que a pergunta mais útil, para quem chega dizendo “já tentei de tudo”, quase nunca é “qual o próximo tratamento mais forte?”. É outra:

“O que, de tudo o que você tentou, chegou realmente a ser um tratamento?”

Você não precisa concluir nada hoje

Não é preciso decidir nada agora, nem se convencer de que os anos anteriores foram desperdiçados — eles não foram, e essa leitura não ajudaria em nada.

Só talvez guardar isto: antes de aceitar que nada funciona para você, e antes de partir para uma intervenção cara, vale saber onde exatamente você parou nesse percurso. É uma pergunta que se responde com alguém, olhando a história inteira com calma — não sozinho, relendo a lista de remédios.

Talvez você nunca tenha chegado ao fim do começo.

Sente que já tentou de tudo contra a depressão?

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Dr. Leonardo Sodré é médico psiquiatra em Brasília (CRM-DF 14.206 · RQE 14.761), com formação e interesse em psicanálise. Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento individual.