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Farmacoterapia
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Ilustração para o artigo: Quando trocar de remédio já não é a resposta

Existe um momento específico dentro dessas consultas, e ele costuma acontecer perto do fim.

O paciente já contou como foram os últimos dois meses. Não houve piora dramática, não houve nada de novo — foi tudo mais ou menos igual, que é o que ele vem dizendo há um bom tempo. O médico ouve, olha a tela, rola a lista do que já foi usado. Há um silêncio de alguns segundos que ninguém comenta.

E então alguém faz a pergunta. Às vezes é o paciente, às vezes é a filha que veio junto, às vezes é o próprio médico pensando alto: “e agora, qual a gente tenta?”

Do lado de fora, na sala de espera, existe uma pasta plástica com receitas antigas. Algumas famílias guardam tudo. Dá para reconstituir seis, oito anos de tratamento por aquelas folhas — nomes que se sucedem, doses que sobem, combinações que se somam e depois se desfazem, cada uma delas prescrita por alguém competente, cada uma delas com uma boa razão para ter sido tentada naquele momento.

Quando essa pasta fica grossa demais, alguma coisa mudou de natureza, mesmo que a consulta continue acontecendo do mesmo jeito.

Talvez você tenha reconhecido essa cena porque já esteve na cadeira. Ou talvez tenha reconhecido porque é você quem acompanha alguém a essas consultas há anos, e conhece a pasta plástica de cor. Se for o caso, de um jeito ou de outro, vale dizer: se você chegou a pensar que talvez não haja mais o que fazer, não haveria nada de irracional nisso. Seria a conclusão previsível de quem repetiu a mesma sequência muitas vezes e obteve o mesmo resultado. Só que “a próxima troca provavelmente não resolve” e “não há o que fazer” são frases diferentes, e a distância entre as duas é o assunto deste texto.

Quando a pergunta certa deixa de ser “qual o próximo”

Nas primeiras tentativas, a lógica de trocar faz todo sentido. Uma parte das pessoas responde à primeira escolha, outra parte responde à segunda, e ajustar até encontrar o que funciona é medicina razoável, feita todos os dias, com bons resultados.

O que acontece é que essa lógica tem um limite, e o limite não é matemático — não existe um número mágico de tentativas depois do qual tudo muda. O que existe é uma mudança de probabilidade: quanto mais tentativas adequadas se acumulam sem resposta, menor a chance de que a próxima seja simplesmente a certa, e maior a chance de que exista alguma outra coisa acontecendo que ainda não foi identificada.

Nesse ponto, continuar perguntando “qual o próximo” não é errado. É apenas insuficiente. É como trocar a peça sem ter reaberto o diagnóstico da máquina.

E aqui vale uma observação que costuma ser esclarecedora: contar quantos remédios alguém já tomou diz menos do que parece. Muita gente chega dizendo “já tomei dez”. Quando se reconstrói a história com calma, às vezes se descobre que várias daquelas tentativas foram interrompidas antes de terem chance de mostrar qualquer coisa — por efeito indesejado, por questão de custo, por uma viagem, por um período em que a pessoa parou sem contar a ninguém. Foram tentativas iniciadas, não tentativas completas. Isso não é falha de ninguém; é o que acontece quando um tratamento se estende por anos e passa por vários médicos.

Só que a diferença entre dez tentativas e três tentativas de fato completas muda inteiramente a leitura do caso. E essa distinção não aparece na pasta plástica. Ela só aparece quando alguém senta e refaz a história inteira, ano por ano.

A primeira coisa a reabrir é o diagnóstico

Esta é a parte que costuma incomodar, e é a mais importante.

Quando um quadro não responde a tratamentos sucessivos e bem conduzidos, a hipótese que precisa ser reexaminada antes de qualquer outra não é a do remédio. É a do diagnóstico.

Isso não significa que quem atendeu antes errou. Significa que certos quadros se apresentam, no começo, com uma face só — e que essa face pode ser indistinguível de uma depressão comum durante anos. A informação que faria a diferença muitas vezes não estava disponível na primeira consulta: ou ainda não tinha acontecido, ou aconteceu e ninguém perguntou, ou foi perguntada e a pessoa, naquele estado, não conseguiu contar direito.

Por isso a reavaliação de um caso resistente não começa de onde o último médico parou. Começa do zero. Reconstrói-se a linha do tempo desde a adolescência, procura-se o desenho dos episódios ao longo da vida, pergunta-se o que aconteceu nas fases em que a pessoa esteve bem — e não só nas em que esteve mal. Escuta-se, quando possível, quem convive, porque há coisas que ninguém enxerga em si mesmo.

Às vezes esse trabalho confirma exatamente o que já se sabia. E confirmar tem valor: passa-se a tratar um quadro resistente sabendo que é isso, em vez de tratar uma depressão comum que inexplicavelmente não melhora. Outras vezes, o que aparece é uma leitura diferente do caso inteiro — e a partir dali as decisões clínicas passam a ser outras. Quais, especificamente, é assunto de consultório, e não de texto.

O que mais pode estar sustentando o quadro

Um estado depressivo que dura anos raramente é sustentado por uma só coisa. Quando a avaliação é refeita de verdade, ela precisa olhar para tudo o que pode estar mantendo aquilo de pé — e boa parte disso não é psiquiátrico.

Existem condições médicas gerais que produzem ou perpetuam quadros depressivos e que passam despercebidas com facilidade, porque os sintomas se confundem. Existe o que acontece com o sono ao longo de anos de doença, que deixa de ser consequência e passa a ser causa. Existe dor crônica. Existem substâncias de uso cotidiano, incluindo álcool, cujo papel raramente é mensurado com honestidade. Existem medicações usadas para outras finalidades cujo efeito sobre o humor ninguém somou. E existem os efeitos que a própria doença produziu — o emprego perdido, o isolamento, a relação que se deteriorou — que a certa altura passam a alimentar o quadro sozinhos, independentemente do que o começou.

Nada disso é resolvido escolhendo uma medicação diferente, e nada disso aparece se ninguém procurar.

Por que isso exige tempo de consulta

Refazer uma avaliação desse tipo não cabe em quinze ou vinte minutos, e é honesto dizer isso em vez de fingir o contrário.

Reconstruir três décadas de história, examinar prontuários antigos, entender o que de fato aconteceu em cada tentativa anterior, escutar a família, revisar o que mais está em jogo do ponto de vista clínico — isso é um trabalho de horas, não de uma consulta de retorno. É a diferença mais concreta entre uma reavaliação e uma segunda opinião apressada, que costuma chegar às mesmas conclusões porque partiu do mesmo resumo.

Se você já foi a vários médicos e teve a sensação de que todos ouviram a versão curta da sua história, provavelmente ouviram mesmo. Não por descuido: porque a versão longa não cabia no tempo que havia.

O que este texto não está dizendo

Três coisas, e prefiro deixá-las escritas.

Não estou dizendo que o tratamento feito até aqui foi errado, nem que os médicos anteriores falharam. Na maioria dos casos que vejo, as condutas foram defensáveis com a informação que existia.

Não estou dizendo que existe um remédio certo esperando ser descoberto. Essa promessa é feita com frequência e não se sustenta.

E não estou dizendo o que deveria ser feito no seu caso ou no caso da sua mãe. Não dá para dizer isso sem examinar a pessoa, e qualquer texto que diga está te enganando.

O que estou dizendo é apenas que existe um ponto em que a pergunta muda. Deixa de ser “qual a gente tenta agora” e passa a ser “o que exatamente estamos tratando, e o que mais está sustentando isso”. São perguntas diferentes, e elas levam a consultas diferentes.

Se você está nesse ponto

Você não precisa concluir nada hoje. Não precisa trocar de médico, não precisa questionar quem te acompanha, não precisa tomar nenhuma decisão nesta semana.

Talvez baste guardar a distinção: anos sem resposta indicam que a avaliação precisa ser refeita, não necessariamente que o caso não tem saída. Quando fizer sentido para você olhar de novo para isso, com o tempo que o assunto pede, existe onde.

Trocar de medicação já não parece ser a resposta?

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Dr. Leonardo Sodré é médico psiquiatra e psicoterapeuta em Brasília (CRM-DF 14.206 · RQE 14.761). Doutor em Psiquiatria pela UFRGS e professor na Faculdade de Medicina da UnB. Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento individual.