Anos tratados como depressão quando o quadro era outro. Por que a agitação depois do remédio precisa ser levada a uma reavaliação diagnóstica.

Na terceira semana, ela começou a esvaziar os armários da cozinha às duas da manhã.
Não estava angustiada. Era o contrário: estava animada. Explicou, no dia seguinte, que tinha dormido pouco mas acordado ótima, que finalmente tinha energia para dar conta de tudo que estava atrasado havia meses. Falava rápido. Emendava um assunto no outro. Tinha três projetos novos e queria começar todos naquela semana.
Em casa, a leitura inicial foi de alívio. O remédio estava funcionando. Ela tinha passado quase um ano sem levantar da cama antes das onze, sem atender telefone, sem querer ver ninguém — e agora estava assim. Alguém chegou a dizer que era bom ver aquilo de volta.
O alívio durou uns dez dias.
Depois vieram as compras. Depois a briga com a irmã por uma coisa mínima, com uma agressividade que não era dela. Depois o dinheiro que sumiu de um lugar onde ninguém tinha autorizado mexer. Depois quatro semanas em que a casa inteira parou de funcionar, e mais alguns meses até que ela voltasse — arrasada, envergonhada, sem entender direito o que tinha feito.
E aí, com a mesma lógica de sempre, alguém sugeriu voltar a tratar a depressão.
Quando essa história chega ao consultório, ela já vem na terceira ou quarta volta. A frase costuma sair mais ou menos assim: toda vez que ela toma um antidepressivo comum, parece que enlouquece e a nossa família quase vai à falência.
Talvez você tenha reconhecido alguma coisa nessa sequência. Ou talvez tenha pensado em alguém — uma cunhada, uma amiga, uma mãe — de quem já se disse, mais de uma vez, que “reage mal a remédio”. Se for o caso, de um jeito ou de outro, vale dizer: essa observação que a família faz não é impressão leiga nem exagero. É um dado clínico, e dos mais importantes que existem.
O que a família observou tem nome
Existe um fenômeno bem descrito em psiquiatria: em algumas pessoas, o tratamento voltado apenas para a depressão não corrige o humor — ele o desestabiliza. Em vez de trazer o humor de volta ao lugar, empurra para o outro extremo, ou produz um estado misto, agitado, irritável, com pouco sono e muita atividade, que ninguém em casa consegue nomear.
Isso não acontece com todo mundo. Acontece, sobretudo, quando o quadro de base nunca foi de depressão isolada — quando o que existia era outra coisa, da qual os períodos depressivos eram apenas a parte visível.
E é importante entender por que essa outra coisa passa tantos anos sem ser identificada. Não é descuido de ninguém.
Ninguém procura ajuda na fase boa
As pessoas procuram psiquiatra quando estão sofrendo. Ninguém marca consulta porque está com energia demais, disposição demais, ideias demais e dormindo pouco sem sentir falta.
Então o que chega ao consultório é sempre a metade depressiva do quadro. A pessoa senta e descreve com precisão o vazio, o cansaço, a falta de vontade, o peso de levantar. Descreve tudo aquilo com sinceridade. E tudo aquilo é verdade.
A outra metade, quando aparece na conversa, aparece disfarçada. É contada como “uma fase em que eu estava muito bem”, “um período em que eu produzi muito”, “uma época em que eu estava mais confiante”. Nada nessas frases levanta suspeita. Muita gente as diria sobre um bom ano da própria vida.
Some-se a isso um detalhe: durante um período de aceleração, a percepção do próprio estado costuma ficar prejudicada. Aquilo não é vivido como alteração. É vivido como lucidez, como estar finalmente funcionando direito. Ninguém relata como sintoma o que sentiu como o melhor mês da vida.
O resultado é que a informação decisiva simplesmente não entra na consulta — a menos que alguém pergunte por ela de forma ativa, com tempo, e cruze com a versão de quem conviveu.
Por que “reagiu mal ao remédio” costuma ser lido de outro jeito
Quando a agitação aparece semanas depois do início de um tratamento, existe uma leitura fácil disponível, e é quase sempre a que se adota: a de que a pessoa não tolerou aquela substância. Trocou-se por outra. Depois por outra. Em cada troca, o mesmo padrão se repetiu, e cada repetição foi registrada como mais uma intolerância isolada.
Mas há uma diferença enorme entre um efeito adverso pontual e um padrão que se repete com substâncias diferentes, sempre na mesma direção, sempre com a mesma cara. A primeira coisa é sobre o remédio. A segunda é sobre o diagnóstico.
O que costumo ver é que a família percebeu isso muito antes dos médicos. Alguém em casa já tinha dito, em algum momento, a frase completa: “toda vez que ela toma isso, ela fica assim”. Só que essa observação raramente encontra um espaço de consulta com tempo suficiente para ser levada a sério — e ela é, sozinha, um dos indícios mais fortes de que a leitura diagnóstica precisa ser refeita.
O custo dos anos perdidos
Vale nomear isso sem suavizar, porque quem viveu sabe.
Não estamos falando apenas de tempo. Estamos falando de casamentos que não sobreviveram àquelas semanas. De empregos perdidos por decisões tomadas num estado que ninguém entendeu. De dívidas que a família ainda está pagando. De filhos que cresceram sem saber por que a mãe era duas pessoas diferentes em meses diferentes.
E, quase sempre, de uma culpa mal distribuída: a pessoa acreditando que tem um defeito de caráter, e a família dividida entre a raiva do que aconteceu e a certeza incômoda de que aquilo não era escolha.
Não sei prometer que nomear isso resolve o passado. Não resolve. Mas muda o que se faz com ele — e muda, sobretudo, a pergunta que se leva à próxima consulta.
O que uma reavaliação faz com essa história
Não vou dizer aqui o que deveria ser feito no lugar. Isso não se decide num texto, nem por escrito, nem sem examinar a pessoa. Seria desonesto sugerir que existe uma resposta simples que alguém deixou de dar.
O que dá para dizer é o que uma reavaliação séria olha, e que costuma nunca ter sido olhado.
Ela reconstrói a linha do tempo inteira — não os últimos meses, mas os últimos dez ou vinte anos. Pergunta pelos períodos bons com a mesma seriedade com que pergunta pelos ruins. Pergunta quanto tempo cada um durou, o que aconteceu antes, o que mudou primeiro. Investiga o que houve na família, em gerações anteriores, inclusive o que nunca teve nome. Coloca lado a lado cada tentativa de tratamento e o que veio depois dela, em ordem, para ver se há um padrão onde antes se via uma sequência de azares.
E, principalmente, escuta quem conviveu. Porque a pessoa que passou por uma fase acelerada tem, sobre aquele período, uma memória incompleta por definição. Quem estava do lado de fora tem a outra metade.
Não é mais uma consulta. É refazer a pergunta desde o começo — e há situações em que isso não deveria esperar mais um ciclo para acontecer.
Se essa história parece a sua
Você não precisa chegar a conclusão nenhuma hoje. Nem discutir diagnóstico com quem já atendeu, nem convencer ninguém de nada.
Se ficar só uma coisa, que seja esta: o que você observou em casa, repetidas vezes, ao longo de anos, não é palpite. É informação clínica que ninguém além de você tem — e ela merece ser levada inteira a alguém que tenha tempo de escutá-la.
Você não precisa concluir nada hoje.
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Dr. Leonardo Sodré é médico psiquiatra e psicoterapeuta em Brasília (CRM-DF 14.206 · RQE 14.761). Doutor em Psiquiatria pela UFRGS e professor na Faculdade de Medicina da UnB. Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento individual.