
A consulta já acabou.
A pessoa levantou, pegou a bolsa, foi até a porta. E é ali, com a mão na maçaneta, que ela finalmente diz o que estava guardando havia cinquenta minutos. Não a insônia, não o aperto no peito, não o divórcio. Outra coisa, dita rápido, quase como se fosse um detalhe administrativo:
Doutor, só uma coisa. Eu não quero tomar nada que me deixe dopado ou lento no trabalho.
Isso acontece com uma frequência que impressiona. E quase sempre no mesmo momento — na saída, de pé, em tom de quem está pedindo desculpa por estar levantando a questão.
O que costumo pensar quando ouço essa frase é que ela não é um detalhe. É provavelmente a coisa mais importante que foi dita na consulta inteira. Porque ela revela o que está de fato em jogo: não é medo de remédio. É medo de perder a única coisa que ainda está funcionando.
Quem está atravessando uma crise pessoal grande — uma separação, uma perda, uma ruptura profissional — muitas vezes tem o trabalho como o último território estável. A vida em casa desmontou, mas às nove da manhã a pessoa ainda é competente, ainda entrega, ainda é reconhecida por isso. É o lugar onde ela continua sendo quem sempre foi. A ideia de mexer nisso assusta mais do que continuar mal.
Talvez você tenha reconhecido essa frase como sua. Ou talvez tenha pensado em alguém que já lhe disse exatamente isso — e a quem você não soube responder. Se for o caso, de um jeito ou de outro, vale dizer de saída: não haveria nada de errado nesse receio. Ele é comum, é legítimo, e não é um obstáculo ao tratamento. É informação clínica de primeira ordem.
De onde vem esse medo
Ele não sai do nada. Costuma ter três origens, e todas fazem sentido.
A imagem cultural. A palavra “psiquiátrico” ainda carrega, no imaginário de muita gente, a figura de alguém apagado, arrastado, com a fala lenta. É uma imagem antiga, construída em outro contexto, e ela persiste mesmo em pessoas com alto nível de instrução — porque não foi aprendida por informação, foi absorvida por convivência.
A história de terceiros. Quase todo mundo conhece alguém que tomou alguma coisa e passou mal com aquilo. O primo que ficou zonzo. A colega que engordou. O amigo que disse que se sentiu “sem graça de viver”. Essas histórias são reais e não devem ser desqualificadas. O que costuma faltar nelas é o resto: quem indicou, por quê, se houve acompanhamento, se o incômodo foi relatado a alguém, o que foi feito depois. Quase sempre a história chega sem essa parte.
A experiência própria mal conduzida. Muita gente já tomou alguma coisa em algum momento, prescrita de passagem numa consulta de outra especialidade, sem que ninguém tenha explicado o que se esperava daquilo, sem retorno marcado e sem ninguém para quem contar que estava ruim. Se a única experiência anterior foi essa, o receio não é preconceito. É memória.
O que “atrapalhar o trabalho” quer dizer de verdade
Vale abrir essa preocupação, porque ela costuma ser mais específica do que a frase deixa ver.
Quando alguém diz “não quero ficar lento”, raramente está falando de sonolência genérica. Está falando de coisas muito concretas: a agilidade numa sustentação oral. A capacidade de encontrar a palavra certa no meio de uma frase. A leitura rápida de uma sala de reunião. A memória de trabalho que segura três argumentos ao mesmo tempo. O tempo de resposta quando alguém do outro lado faz a pergunta difícil.
Essas são competências finas, e quem vive delas percebe uma variação de cinco por cento que ninguém mais notaria. Não é vaidade. É a matéria-prima do ofício.
Se essa é a sua preocupação, ela precisa ser dita exatamente assim, com esse nível de detalhe, dentro da consulta. Não como ressalva de porta. Como parte central do que o médico precisa saber sobre você para conduzir qualquer coisa.
Sedação não é objetivo de tratamento
Existe um mal-entendido de base que vale desfazer, e ele pode ser dito sem entrar em nenhuma questão técnica.
Deixar alguém lento não é a finalidade de um tratamento psiquiátrico bem conduzido. Em nenhuma circunstância isso é o alvo. Quando aparece, é efeito indesejado — e efeito indesejado é algo que se relata, se avalia e se reconsidera, não algo que se aceita em silêncio como preço a pagar.
Isso muda a natureza da conversa. A pergunta deixa de ser “vou ficar lento ou não” e passa a ser outra: existe um acompanhamento de verdade, com alguém que vai perguntar especificamente sobre isso e reavaliar caso apareça?
Porque é aí que costuma estar a diferença real entre uma experiência ruim e uma bem conduzida. Não no que foi prescrito — no que aconteceu depois. Se houve retorno marcado. Se alguém perguntou como estava a concentração, e não apenas se o humor tinha melhorado. Se houve espaço para dizer “isso está me atrapalhando” sem que a pessoa se sentisse mal-agradecida por dizer.
Não posso, num texto, dizer nada sobre o que serve ou não serve para o seu caso. Isso não existe fora de uma avaliação individual, e qualquer coisa dita aqui seria irresponsável. O que posso dizer é que a sua preocupação com rendimento é uma variável clínica válida, que ela entra na conversa, e que um psiquiatra que a leve a sério é o mínimo que você deve esperar.
A comparação honesta
Há uma conta que quase nunca é feita, e ela costuma mudar a perspectiva.
Quando alguém teme que um tratamento prejudique o desempenho, a comparação implícita é entre “como estou hoje” e “como eu poderia ficar”. Mas o “como estou hoje” raramente é um ponto de partida neutro.
Insônia sustentada por meses tem efeito documentado sobre atenção, memória e julgamento. Ansiedade contínua consome recurso cognitivo o tempo todo, mesmo quando a pessoa não percebe. Quem está há três meses acordando às três da manhã e relendo o mesmo parágrafo quatro vezes já está trabalhando com uma fração da própria capacidade — só não tem como comparar, porque a deterioração foi lenta e a régua interna acompanhou.
O que costumo ver em consultório é que a pessoa que mais teme perder rendimento é justamente a que já vem perdendo há um tempo, sem ter percebido, e compensando com horas a mais e margem a menos.
Isso não é argumento para tomar nada. É argumento para avaliar com precisão de onde você está partindo, antes de decidir qualquer coisa.
Levar a pergunta para dentro da consulta
Se você chegar a marcar uma avaliação, a coisa mais útil que você pode fazer é dizer essa frase logo no começo, e não com a mão na maçaneta.
Diga que trabalha com alta exigência cognitiva. Diga o que exatamente você teme perder. Conte a história do primo ou da colega, se for ela que está por trás do receio — vale mais do que parece. Diga se já tomou alguma coisa antes e como foi.
Nada disso é resistência ao tratamento. É o oposto: é dar ao médico as informações sem as quais nenhuma decisão pode ser bem tomada. E, na prática, uma pessoa que diz claramente o que teme costuma ser muito mais fácil de acompanhar do que uma que aceita tudo calada e simplesmente para de tomar duas semanas depois, sem avisar.
Você também não precisa sair de uma primeira consulta com qualquer coisa decidida. Uma avaliação existe para entender o que está acontecendo — e há muitos casos em que a conclusão é que não se trata de um quadro que peça tratamento medicamentoso, apenas de um período difícil que está sendo atravessado sem sono e sem apoio.
Não dá para saber isso de fora. É exatamente por isso que se avalia.
Sobre não prometer nada
Uma última observação, para não haver mal-entendido.
Ninguém honesto vai lhe garantir que um tratamento não terá nenhum efeito perceptível, assim como ninguém honesto promete resultado. O que existe é acompanhamento: alguém que conheça o seu caso, que pergunte especificamente sobre o que importa para você, que reavalie quando algo não estiver bom, e com quem você possa ser franco.
Isso não é pouco. Na verdade, é quase tudo.
Você não precisa concluir nada hoje. Se o seu medo é ficar lento, ele não é um motivo para não procurar avaliação — ele é, provavelmente, o melhor motivo para procurar alguém que saiba ouvir esse medo direito.
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Dr. Leonardo Sodré é médico psiquiatra em Brasília (CRM-DF 14.206 · RQE 14.761), com formação e interesse em psicanálise. Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento individual.