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Saúde Mental dos Médicos
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Residente de medicina em momento de dúvida sobre continuar a residência

Segundo ano de residência em clínica médica. Plantão de doze horas terminando às sete da manhã. Você entrega o pager para o colega, senta no vestiário, e a pergunta que não deveria estar ali aparece com uma clareza incômoda: e se eu não voltasse amanhã? Não hoje, não por cansaço agudo, mas nunca mais. E se essa carreira que sustentou toda a sua identidade nos últimos oito anos simplesmente não fosse o que você deve continuar fazendo?

Essa pergunta é comum. Muito mais comum do que a cultura médica admite. Também é uma das mais difíceis de responder sozinho, porque envolve dois planos que se confundem sem que o próprio residente perceba: o plano do sintoma clínico e o plano da leitura de si.

Este texto é sobre essa diferença.

A ambivalência que a residência produz

A residência é, por desenho, uma experiência que empurra o médico ao limite. Carga horária de sessenta a oitenta horas semanais em muitos serviços. Sono fragmentado. Exposição contínua a sofrimento agudo, morte, decisão de alto risco com informação incompleta. Hierarquia rígida em que a maioria dos residentes ocupa a base. Remuneração desproporcional à responsabilidade. E, sobreposto a tudo isso, um discurso institucional que trata o desgaste como parte da formação — a ideia de que “todo mundo passou por isso” e portanto qualquer sofrimento seu é, no fundo, incapacidade de tolerar o que já foi tolerado.

O resultado previsível dessa configuração é ambivalência. O residente admira a medicina que pratica e detesta as condições em que a pratica. Escolheu a especialidade e questiona a escolha. Sente vocação e sente que perdeu a vocação. Essa ambivalência é estrutural da experiência da residência — não é sinal de que a pessoa errou de profissão, e também não é sinal de que a pessoa é fraca.

O problema não é sentir a ambivalência. O problema é o que se faz com ela, sozinho, exausto, e sob pressão.

Duas leituras possíveis do mesmo sentimento

A vontade de desistir da residência pode significar coisas muito diferentes, dependendo do que a sustenta. E a diferença importa, porque conduz a caminhos opostos.

Uma primeira leitura possível é que essa vontade é sintoma de um quadro clínico que está distorcendo a percepção do residente. Depressão em residente costuma se apresentar assim: sensação de estar aprisionado, ruminação sobre erros passados, incapacidade de encontrar prazer no que antes dava sentido, aplainamento afetivo. Nesse contexto, a vontade de largar a residência é frequentemente parte do quadro depressivo — não expressão de uma decisão lúcida sobre carreira. Tratar a depressão, e só depois revisitar a decisão sobre continuar ou não, é o caminho clínico correto. Muitos residentes que consideraram desistir durante episódio depressivo e receberam tratamento adequado retomaram o programa e concluíram bem.

Uma segunda leitura, igualmente possível, é que essa vontade é uma leitura clínica precisa de que a especialidade escolhida, o serviço em que a residência é feita, ou a própria configuração institucional da medicina como carreira, não são compatíveis com quem o residente é. Nesse caso, a vontade de sair não é sintoma — é elaboração. E adiar essa elaboração, tratando-a como se fosse sintoma a ser suprimido, prolonga o sofrimento sem resolver a questão de fundo.

O problema técnico é que os dois quadros produzem, do lado de dentro do residente, sensações que se parecem muito. Cansaço, desânimo, questionamento sobre continuar. É por isso que a distinção não se faz sozinho.

Sinais que apontam para a leitura clínica sintomática

Alguns marcadores costumam sugerir que a vontade de desistir está sendo alimentada por quadro depressivo (ou ansioso, ou de burnout instalado), e não por decisão clínica sobre a carreira. Nenhum deles isoladamente confirma; todos juntos merecem investigação.

Alterações de sono e apetite fora do esperado pela carga da residência. Sensação de aplainamento — as coisas boas fora do trabalho também deixaram de ter graça. Ideação de morte, mesmo passageira (“seria mais fácil não acordar amanhã”). Aumento do consumo de álcool ou substâncias como estratégia de regulação. Isolamento crescente dos colegas e da família. Ruminação obsessiva sobre erros clínicos passados que não são objetivamente graves. Incapacidade de sentir prazer em plantões que antes eram fonte de aprendizado.

Quando esses marcadores aparecem, a vontade de largar a residência é secundária a algo que precisa ser tratado primeiro. Tomar a decisão de sair nesse estado é decisão feita por alguém que não é você em condições basais — é você distorcido por sintoma.

Sinais que apontam para a leitura clínica lúcida

Do outro lado, existem configurações em que a vontade de sair tem outra qualidade e merece ser levada a sério como decisão, não patologizada.

Você continua encontrando sentido em algumas partes do trabalho médico, mas percebe com clareza que a especialidade escolhida não é onde esse sentido está. Você tem funcionamento preservado fora do trabalho — consegue sentir prazer em outras áreas da vida, mantém vínculos, dorme quando pode dormir. O desejo de deixar a residência não é acompanhado por desejo de morte, apenas por desejo de outra coisa. Você consegue nomear com precisão o que está fora do lugar (não é vago mal-estar; é “eu não quero passar meus próximos trinta anos operando” ou “eu quero trabalhar com gente e essa especialidade não permite isso”). E finalmente: a ideia de sair não vem apenas como fuga, mas com uma imagem plausível do que viria em seguida.

Quando esses sinais aparecem, o que se está expressando é revisão de escolha adulta. E revisar escolha adulta não é fracasso — é lucidez.

A dificuldade de fazer essa diferenciação sozinho

O residente exausto, isolado, e sob pressão institucional para não questionar a formação, geralmente não consegue distinguir sozinho entre essas duas leituras. Não por falta de inteligência, mas porque as ferramentas psíquicas que fariam essa diferenciação estão comprometidas exatamente pelo estado em que ele se encontra. Depressão distorce a percepção do próprio funcionamento — inclusive a percepção de que está deprimido.

Isso é agravado por três coisas específicas da cultura médica. Primeira: o residente em sofrimento tende a se comparar com outros residentes (“todo mundo está passando por isso, se eu não aguento é porque tem algo errado comigo”), o que efetivamente silencia o próprio sinal. Segunda: o próprio ambiente médico patologiza mal — ou trata tudo como fraqueza a superar, ou ignora completamente. Terceira: buscar ajuda dentro do próprio serviço envolve risco real (exposição institucional, medo de retaliação, dúvidas sobre confidencialidade), o que atrasa muito a procura de avaliação adequada.

O resultado é que muitos residentes tomam decisões definitivas — desistir ou continuar — no pior momento possível para tomar decisões, e depois vivem as consequências dessas decisões por décadas.

O que a psicoterapia analítica oferece nesse ponto

Uma consulta psiquiátrica bem feita, para um residente nessa situação, faz duas coisas ao mesmo tempo. A primeira é diagnóstica: avalia se existe quadro clínico ativo que exige tratamento (depressão, ansiedade, burnout instalado, uso problemático de substância). Se existe, o tratamento vem primeiro, e a decisão sobre a residência é adiada até o quadro estar estabilizado. Essa é a parte médica do trabalho, e ela é essencial.

A segunda é o que a análise pessoal oferece: um espaço onde a ambivalência pode ser examinada sem pressa e sem julgamento. Não para chegar a uma decisão pronta na próxima sessão, mas para elaborar aquilo que o residente carrega junto com a vontade de sair. Qual foi o desejo original que levou à medicina, e ele ainda existe. Que expectativas herdadas (da família, dos professores, do próprio ideal de si) sustentam a permanência mesmo contra o próprio interesse. Que fantasia de fracasso está associada à ideia de sair, e de onde ela vem. Que fantasia de salvação está associada à ideia de continuar. Que projeções operam sobre a figura do médico ideal, e o quanto elas são impossíveis de sustentar.

Esse trabalho de nomeação e elaboração não resolve a decisão no lugar do residente. Faz algo mais útil: cria as condições em que o próprio residente pode tomar sua decisão em condições basais, sem que sintoma, exaustão ou pressão institucional decidam por ele.

O que este texto quer que o leitor considere

Se você é residente lendo isto, e a vontade de largar a residência aparece de vez em quando ou aparece constantemente, o convite não é a decidir agora. É a reconhecer que essa vontade merece ser examinada em espaço apropriado, com alguém que não tem interesse na sua permanência nem na sua saída. Um psiquiatra experiente no trabalho com médicos, com formação em psicoterapia, é essa figura. E procurar essa avaliação não é fracasso profissional — é o oposto disso.

A pior decisão possível é decidir sob distorção. A melhor decisão possível é decidir depois de ter tido o espaço para pensar.


Se você é residente médico considerando desistir da residência, ou reconhece em si o padrão descrito neste texto, uma avaliação clínica cuidadosa é o passo que permite distinguir entre sintoma e leitura lúcida antes de decisões definitivas. Atendimento particular com o Dr. Leonardo Sodré — psiquiatra e psicoterapeuta com formação psicanalítica e experiência no trabalho com médicos. WhatsApp da secretária Bárbara ou informações completas sobre a consulta.